Entrevista de Francis Collins, líder do Projeto Genoma Humano, à Revista Veja em 24/01/2007.
O biólogo que desvendou o genoma humano
explica
por que é possível aceitar as teorias de
Darwin
e ao mesmo tempo manter a fé religiosa
Gabriela Carelli
O biólogo americano Francis Collins é um dos cientistas mais
notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo
governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular
da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde
então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao
tratamento de doenças em todo o mundo. Collins também é conhecido
por pertencer a uma estirpe rara, a dos cientistas cujo compromisso
com a investigação do mundo natural não impede a profissão da fé
religiosa. Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a
existência de Deus, Collins decidiu reagir. Ele lançou há pouco
nos Estados Unidos o livro The Language of God (A Linguagem de
Deus). Nas 300 páginas da obra, o biólogo conta como deixou de ser
ateu para se tornar cristão aos 27 anos e narra as dificuldades que
enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé. "As sociedades
precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são
incompatíveis, mas complementares", explica o cientista. A
seguir, a entrevista de Collins a VEJA:
Veja – No livro A Linguagem de Deus, o senhor
conta que era um "ateu insolente" e, depois, se converteu
ao cristianismo. O que o fez mudar suas convicções?
Francis
Collins – Houve um período em minha vida em que era
conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a
química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os
mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de
exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não
substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi
pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar
sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença,
perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em
nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista
ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto
tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que
equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente.
Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar
questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o
mundo e fazem as pessoas superar desafios.
Veja – Que questões são essas para as quais não
encontramos respostas?
Collins – Falo de questões
filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da
existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão
empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos
fazemos todos os dias. "O que acontece depois da morte?" ou
"Qual é o motivo de eu estar aqui?". Não é certo negar
aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um
simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um
sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é
uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus
sempre esteve presente na história e foi necessária para o
progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a
vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a
União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam. Precisamos
da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para
melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em
silêncio nos assuntos espirituais.
Veja – A maioria dos cientistas argumenta que a crença
em Deus é irracional e incompatível com as descobertas científicas.
O zoólogo Richard Dawkins, com quem o senhor trava um embate
filosófico sobre o tema, diz que a religião é a válvula de escape
do homem, o vírus da mente. Como o senhor responde a isso?
Collins
– Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu
acredito que o ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os
cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e
negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses
cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução
e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de
Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da
religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim
complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a
outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas
da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e
equivocada. No ano passado foram lançados vários livros de
cientistas renomados, como Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, que
atacam a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que
têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses
cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda
existem. É o que nos cabe.
Veja – O senhor afirma que as sociedades precisam da
religião, mas como justificar as barbaridades cometidas em nome de
Deus através da história?
Collins –
Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas
em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William
Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a
escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa
circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que
às vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios
estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses
princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A
religião é um veículo da fé – essa, sim, imprescindível para a
humanidade.
"O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva."
Veja – O senhor diz que a ciência e a religião
convergem, mas devem ser tratadas separadamente. Como vê o movimento
do "design inteligente", em que cientistas usam a religião
para explicar fatos da natureza que permanecem um mistério para a
ciência?
Collins – Essa abordagem é um
grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha a que chamo
de "lacuna divina". Lamento que o movimento do design
inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o argumento de que a
evolução não explica estruturas tão complicadas como as células
ou o olho humano. É dever de todos os cientistas, inclusive dos que
têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que
existe. Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente –
o mais citado é o "bacterial flagellum", um pequeno motor
externo que permite à bactéria se mover nos líquidos – são um
conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas
trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses
mecanismos se formaram gradualmente através do recrutamento de
outros componentes. No curso de longos períodos de tempo, as
máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo que
Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução.
Veja – Qual a sua leitura da Bíblia?
Collins
– Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se
achar que a interpretação que cada um de nós dá à Bíblia
é a única correta, mas a advertência foi logo esquecida. Agostinho
já dizia que não há como saber exatamente o que significam os seis
dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral
da Bíblia é equivocada é que há duas histórias sobre a
criação no livro do Gênesis 1 e 2 – e elas são discordantes.
Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro
científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa
relação com Ele. Muitas pessoas que crêem em Deus foram levadas a
acreditar que, se não levarmos ao pé da letra todas as passagens da
Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que
Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra
tem menos de 10 000 anos a não ser que se rejeitem todas as
descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da
química e da biologia.
Veja – O senhor acredita na Ressurreição?
Collins
– Sim. Também acredito na Virgem Maria e em milagres.
Veja – Não é uma contradição que um cientista
acredite em dogmas e milagres?
Collins – A
questão dos milagres está relacionada à forma como se acredita em
Deus. Se uma pessoa crê e reconhece que Ele estabeleceu as leis da
natureza e está pelo menos em parte fora dessa natureza, então é
totalmente aceitável que esse Deus seja capaz de intervir no mundo
natural. Isso pode aparecer como um milagre, que seria uma suspensão
temporária ou um adiamento das leis que Deus criou. Eu não acredito
que Deus faça isso com freqüência – nunca testemunhei algo que
possa classificar como um milagre. Se Deus quis mandar uma mensagem
para este mundo na figura de seu filho, por meio da Ressurreição e
da Virgem Maria, e a isso chamam milagre, não vejo motivo para
colocar esses dogmas como um desafio para a ciência. Quem é cristão
acredita nesses dogmas – ou então não é cristão. Faz parte do
jogo.
Veja – É possível acreditar nas teorias de Darwin e em
Deus ao mesmo tempo?
Collins – Com certeza.
Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da evolução
para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir
criaturas que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma e capacidade
de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que ele
não deveria ter criado o mundo dessa forma?
Veja – Alguns cientistas afirmam que a religião e certas
características ligadas à crença em Deus, como o altruísmo, são
ferramentas inerentes ao ser humano para garantir a evolução e a
sobrevivência. O senhor concorda?
Collins – Esses
argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o
altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua
sobrevivência e seu progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles
querem justificar tudo por meio da ciência, e isso acaba sendo usado
para difundir o ateísmo.
Veja – Mas o altruísmo é visto hoje pela genética do
comportamento como uma característica herdada pelos genes, assim
como a inteligência. O senhor, como geneticista, discorda da
genética comportamental?
Collins – Há
muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes para
explicar os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da
evolução para cada um de nós é propagar o nosso DNA e tudo o que
está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas não é assim,
de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo
e a religiosidade. Penso em Oskar Schindler, que se sacrificou por um
longo período para salvar judeus, e não pessoas de sua própria fé.
Por que coisas desse tipo acontecem? Se estou caminhando à beira de
um rio, vejo uma pessoa se afogar e decido ajudá-la mesmo pondo em
risco a minha vida, de onde vem esse impulso? Nada na teoria da
evolução pode explicar a noção de certo e errado, a moral, que
parece ser exclusiva da espécie humana.
Veja – Muitas religiões são contrárias ao uso de
técnicas científicas que poderiam salvar vidas, como a do uso de
células-tronco. Como o senhor se posiciona nessa polêmica?
Collins
– Temos de ser sensíveis e respeitar as diferentes religiões
no que diz respeito aos avanços científicos. Mas interromper as
pesquisas científicas ou impedir que uma pessoa com uma doença
terrível tenha uma vida melhor só porque a religião não aceita
determinado tratamento é antiético. Por outro lado, existem
fronteiras que a ciência não deve transpor, como a clonagem humana,
que além de tudo não serviria para nada a não ser para nos
repugnar. Cada caso tem de ser avaliado isoladamente.
Veja – Os geneticistas são muitas vezes acusados de
brincar de Deus. Como o senhor encara essas críticas?
Collins
– Se todos brincássemos de Deus como Deus gostaria, com
esperança e amor, ninguém se abateria muito com comentários do
gênero. Mas somos seres humanos e temos propensão ao egoísmo e aos
julgamentos equivocados. O importante é não reagir de forma
exagerada à perspectiva de que as pessoas possam vir a fazer mau uso
das descobertas da genética, mas sim focar o lado bom dessa
"brincadeira". A maior parte das pesquisas genéticas busca
a cura de doenças como câncer, problemas cardíacos, esquizofrenia.
São objetivos louváveis. Para evitar o uso impróprio da ciência,
o Projeto Genoma Humano apóia um programa que visa a preservar a
ética nas pesquisas genéticas e certificar-se de que todas as
nossas descobertas beneficiarão as pessoas e a sociedade.
Veja – O que esperar das pesquisas genéticas no futuro?
Collins – Nos próximos dois ou três anos vamos
descobrir os fatores genéticos que criam a propensão ao câncer, ao
diabetes e às doenças cardiovasculares. Isso possibilitará que as
pessoas saibam que provavelmente vão desenvolver esses males e tomem
medidas preventivas contra eles, com a ajuda do médico. Mais à
frente, as descobertas das relações entre o genoma e as doenças
farão com que os tratamentos e os remédios sejam personalizados,
tornando-os mais eficientes e com menos efeitos colaterais.
Veja – O senhor acredita que Deus ouve suas preces e as
atende?
Collins – Eu nunca ouvi Deus falar.
Algumas pessoas ouviram. Não acredito que rezar seja um caminho para
manipular as intenções de Deus. Rezar é uma forma de entrarmos em
contato com Ele. Nesse processo, aprendemos coisas sobre nós mesmos
e sobre nossas motivações.