terça-feira, 15 de outubro de 2019

Sou Mil Mulheres

Não estava nos meus planos ser professor. Sempre que perguntado, quando criança, dizia: "quero ser programador". Hoje não somente amo demais o que eu faço, como entendo que meu labor é um instrumento de transformação de realidade e mais do que isso, é um instrumento nas mãos do Eterno, apesar do miserável homem que sou.

Neste dia dos professores, assim como no ano passado, minha homenagem é em formato de poesia. E a homenagem é, na verdade, para minhas ex-alunas, embora talvez ela sequer conheçam essa página. Essas alunas marcaram minha curta carreira docente: são alunas do curso Mulheres Mil, ministrado em 2018, um curso de formação de operadoras de computador voltado, especialmente, para mulheres em situação de vulnerabilidade social, muito embora o público seja bastante diverso. Essa poesia foi lida na cerimônia de colação de grau.

A poesia, na verdade, é composta por porções de texto resultantes de uma atividade relacionada a autobiografia, para uso prático de um editor de texto. O que fiz foi conectar as frases e palavras de cada uma delas. Elas pensam que eu ensinei e elas aprenderam, quando na verdade foi exatamente o contrário.

Sou Mil Mulheres

Sou potiguar e sou paulista.
Uma capixaba, paraibana.
Sou mãe e sou vó.
Sou esposa, sou solteira.
Divorciada e guerreira.

No trabalho, na casa, no estudo.
Me desdobro, faço de tudo!
Quando nasci, disseram que eu não ia me criar
Mal sabiam a história que um dia eu ia contar.

Do quilombo sim eu sou.
Com honra de gente agricultor.
Logo cedo comecei a trabalhar.
Afinal, em casa eu tinha que ajudar.

Uma casa com muitos filhos e irmãos.
Gente pra brincar não faltava não.
Eram muitas as travessuras.
Pulei corda, brinquei de tica e de roda.
De boneca, pique-esconde e até de bola.
E uma coisa eu não sabia.
Como era grande minha alegria.

Formei família, fui mãe cedo.
Não me arrependo, sou feliz do meu jeito.
Sou dona de casa, garçonete e vendedora.
Sou doméstica, feirante e cuidadora.
E quando me sobra uma horinha.
Me viro até de blogueirinha.

De muita coisa já tive medo.
Mas de trabalho não, pra isso eu levo jeito!
Dignidade não tem idade.
Vou caminhando com fé e muita piedade.

Meus gemidos e desabafos, Deus não cansa em escutar.
E é com essa garra e crença que eu vou continuar.
O primeiro passo eu já dei.
Esse passo foi estudar, eu voltei!

Minha esperança esse curso renovou.
E vai ajudar a realizar muita coisa.
Pra quem muito já sonhou.
Alguns sonhos, já consegui do papel tirar.
Um deles foi dar boa educação.
E com sabedoria os meus filhos criar.

Ainda muita coisa tenho a realizar.
Este curso me ensinou que eu posso ir além.
Que terei a casa própria e o carro vermelho.
Que vai ser novo, chique e espaçoso.

Continuarei caminhando e aprendendo.
Continuarei sonhando e realizando.
Mas acima de tudo, continuarei lutando pelo meu lema:
E meu lema é ser feliz.

"Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve"

Bruno Moreno e Alunas do Mulheres Mil IFRN Nova Cruz
Abril de 2019

terça-feira, 11 de junho de 2019

O Valor do Trabalho

Dentro do homem há uma luta antagônica e frequente entre as obras do espírito e as da carne. Essa luta persiste em tudo que diz respeito ao trabalho, ao labor. É a luta da disposição contra a preguiça, da produtividade contra a procrastinação, do equilíbrio contra a idolatria ao trabalho, do tempo dedicado à família contra o tempo dedicado a si mesmo, da simplicidade contra a vaidade, do interesse público contra o privado, do pensar no próximo contra o egoísmo. Há dias em que penso que venci a luta. Nesses dias, perdi. Nos dias em que encosto a cabeça no travesseiro e vejo minha real condição, percebo que há alguém que luta por mim. É graça perceber. É graça ser suportado. É graça ser aceito. É graça vencer sabendo que perdeu, afinal, se nossas esperanças se limitam somente ao terreno, somos os mais infelizes dos homens (1 Co. 15:19). Em Cristo venço quando percebo que, por mim mesmo, por minhas forças, sentimentos e vontades, só perderia. Mesmo aparentemente ganhando.

E é assim com o trabalho. Não importa o seu labor: ele não é, meramente, um meio de sustento para sua família ou para você mesmo. Isso é graça, é fruto de serviço. Trabalho é serviço e para servir, não importa o que se faça, é necessário ser vocacionado. A vocação, o chamado, vem sempre de alguém e para servir a alguém. Não é escolha. A escolha é se você vai se comportar como servo ou não.

Eu não escolhi ser professor. Fui levado por esse caminho por uma sequência de acontecimentos que, obviamente, envolveram escolhas pessoais, não as nego. E para quem não crê, tudo bem, se resume a isso. Se não crês, pare a leitura por aqui, inclusive. Mas para os que crêem, é vocação, é chamado.

Ser servidor público é chamado ainda mais evidente, uma vez que além da lei dos que crêem, envolve também a dos que não crêem. Para uns parece fácil: "pra você é bom demais", dizem, ou "ah, ter estabilidade é mamão com açúcar", ou até, "xiii, não precisa nem estudar mais ou se esforçar muito". Pra quem tem consciência do chamado, independentemente de ser de ordem pública ou privada, sabe que antes de tudo a ordem é espiritual. Meu trabalho foi emprestado a mim. Ao fim dos dias em que trabalho só para mim, compreendo perfeitamente o que diz Salomão em Eclesiastes 2: "o trabalho se torna pesado, inútil, sem proveito algum… é correr atrás do vento

Nesta semana completo cinco anos de serviço público. E a escolha que penso que fiz foi a melhor: servir ao meu próximo através do ensino. Escolhi o serviço público e o ensino porque Deus os escolheu primeiro. Escolho todos os dias (ou ao menos tento fazê-lo), porque sei que minha profissão pode ser um instrumento de grande valor nas mãos do Criador para mudar realidades. E isso não é ser melhor/pior do que alguém nem meu labor é mais fácil/difícil do que outro. É apenas mais uma forma de servir a Deus e ao meu próximo.

Finalizo com uma breve porção do livro "A treliça e a videira", de Colin Marshall, Tony Payne, bem como com versículo de Paulo aos Colossenses:

"Os cristãos são incentivados fortemente a trabalhar, não apenas por causa do lugar do trabalho na criação, mas também porque o trabalho (como qualquer outra área da vida) é um ambiente onde servimos a Cristo. Num nível profundo, quando trabalhamos em qualquer serviço, trabalhamos para Cristo. [...] Como cristãos, não trabalhamos para obter autorrealização, fama ou enaltecimento pessoal. Trabalhamos não para nós mesmos e sim para os outros, para servi-los, para que não lhes sejamos um fardo e tenhamos algo para compartilhar [...] Isto não é difícil de entender nem de fazer – a menos, é claro, que você seja uma pessoa pecadora que vive num mundo de pecadores."

"Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens."

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Suspiro

O Suspiro



Meu amparo, com amor
Tu fostes, sem *perguntas*
Colo, em meio à dor
E *respostas*, mesmo em lutas

O teu nome a *chamar*
Quando em choro de criança
Da tua casa a *ouvir*
Na angústia, era esperança

Foi *silêncio*, ao telefone
Que tocava, sem parar
E insistência que tinha nome
Foi compreendida sem *falar*

Teu suspiro, quem diria
O *segredo*, tu mesmo não
A insistência, eu já *sabia*
Era amor, na doação

Bruno Moreno
24/04/2019

terça-feira, 4 de junho de 2019

O Pecado da Autoconfiança


Em todas as ocasiões que viajo a trabalho, faço de tudo para que nada saia errado. Não somente quanto à viagem, mas também quanto à minha ausência em casa: planejo tudo para que minha falta não atrapalhe a rotina do lar. Há alguns dias eu tive que viajar. Meu voo era no início da manhã mas às 3 da madrugada eu já estava de pé com meu dia e minha agenda definida.

Em uma hora e meia antes do voo já havia saído de casa, afinal, teria que parar no meio do caminho para abastecer o carro e, assim, minha esposa não teria o trabalho de fazê-lo. Feito isto, em companhia do meu pai, e já a caminho do aeroporto, acontece o inesperado: um buraco no meio do caminho. Resultado: pneu furado. Olho ao derredor e me atento que estou em uma região conhecida por assaltos durante a madrugada. Olho para o relógio e penso: "vai dar tempo, só preciso ser rápido". Não me lembrei, sequer, de orar, afinal, "não dava tempo". Estava tão compenetrado no meu planejamento, que só pensava em correr contra o tempo.

Outro carro já estava no local, um uber com sua passageira. Meu carro era a segunda vítima daquele buraco. Ao começar a trocar o pneu, sou alertado pelo meu pai: "Filho, não é esse pneu, é o dianteiro!". Foi quando percebemos que, na verdade, os dois pneus estavam furados! Nesse momento, atentei que todos os meus planos poderiam falhar, foi quando pensei em alta voz: "Vou perder meu voo". Temor semelhante ao do meu pai, que concordou comigo. Dois pneus. Um estepe. A conta não batia. Passei a murmurar dentro de mim, afinal, seria melhor que não tivesse abastecido o carro, já que essa foi a causa de desviar o caminho. De que adiantaria o carro estar com tanque cheio para a família mas sem dois pneus? Liguei para familiares, todos dormindo, pensei em milhares de soluções para que meus planos dessem, ainda, certo e, pelo menos, conseguisse pegar meu voo. Foi quando o nosso colega ao lado, o uber que foi vítima do mesmo buraco, finalizou a troca do pneu do seu carro. Sua passageira era uma colega que eu não via há quase 10 anos e que estava indo para o mesmo destino: o aeroporto. Peguei, claro, a carona e consegui chegar a tempo, são e salvo, com todos os meus pertences e em tempo hábil.

O pecado da autoconfiança me cegou a ponto de custar a ver a providência do Deus Eterno - que não cabe no tempo porque é dono dele. Demorei para ver o lado bom da história, mas a graça de Deus tirou as escamas dos meus olhos. Cai na graça do Deus que eu havia colocado em minha agenda apenas para "seguir o plano", em uma breve devocional logo cedo. A idolatria de mim mesmo, da minha agenda, do meu tempo me fez esquecer que tudo isso é como a relva que logo se dissipa (1 Pedro 1:24). Todo o lado bom da história me trouxe à memória que se o Senhor não for o Senhor da minha agenda, em vão eu trabalho (Salmos 127). O remédio contra ansiedade é composto por oração, súplica e gratidão (Filipenses 4:6). Que Deus lhe abençoe e que você tenha um dia em total dependência do Senhor do tempo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A Ciência não exclui Deus

Entrevista de Francis Collins, líder do Projeto Genoma Humano, à Revista Veja em 24/01/2007.


O biólogo que desvendou o genoma humano
explica por que é possível aceitar as teorias de
Darwin e ao mesmo tempo manter a fé religiosa
Gabriela Carelli
O biólogo americano Francis Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças em todo o mundo. Collins também é conhecido por pertencer a uma estirpe rara, a dos cientistas cujo compromisso com a investigação do mundo natural não impede a profissão da fé religiosa. Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. Ele lançou há pouco nos Estados Unidos o livro The Language of God (A Linguagem de Deus). Nas 300 páginas da obra, o biólogo conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão aos 27 anos e narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé. "As sociedades precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são incompatíveis, mas complementares", explica o cientista. A seguir, a entrevista de Collins a VEJA:
Veja – No livro A Linguagem de Deus, o senhor conta que era um "ateu insolente" e, depois, se converteu ao cristianismo. O que o fez mudar suas convicções?
Francis Collins – Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios.  
Veja – Que questões são essas para as quais não encontramos respostas?
Collins – Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias. "O que acontece depois da morte?" ou "Qual é o motivo de eu estar aqui?". Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam. Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais.  
Veja – A maioria dos cientistas argumenta que a crença em Deus é irracional e incompatível com as descobertas científicas. O zoólogo Richard Dawkins, com quem o senhor trava um embate filosófico sobre o tema, diz que a religião é a válvula de escape do homem, o vírus da mente. Como o senhor responde a isso?
Collins – Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. No ano passado foram lançados vários livros de cientistas renomados, como Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, que atacam a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda existem. É o que nos cabe.  
Veja – O senhor afirma que as sociedades precisam da religião, mas como justificar as barbaridades cometidas em nome de Deus através da história?
Collins – Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé – essa, sim, imprescindível para a humanidade.
"O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva."
Veja – O senhor diz que a ciência e a religião convergem, mas devem ser tratadas separadamente. Como vê o movimento do "design inteligente", em que cientistas usam a religião para explicar fatos da natureza que permanecem um mistério para a ciência?
Collins – Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha a que chamo de "lacuna divina". Lamento que o movimento do design inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o argumento de que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas, inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que existe. Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente – o mais citado é o "bacterial flagellum", um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos líquidos – são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses mecanismos se formaram gradualmente através do recrutamento de outros componentes. No curso de longos períodos de tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução.
Veja – Qual a sua leitura da Bíblia?
Collins – Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se achar que a interpretação que cada um de nós dá à Bíblia é a única correta, mas a advertência foi logo esquecida. Agostinho já dizia que não há como saber exatamente o que significam os seis dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia é equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do Gênesis 1 e 2 – e elas são discordantes. Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não levarmos ao pé da letra todas as passagens da Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10 000 anos a não ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da química e da biologia.  
Veja – O senhor acredita na Ressurreição?
Collins – Sim. Também acredito na Virgem Maria e em milagres.  
Veja – Não é uma contradição que um cientista acredite em dogmas e milagres?
Collins – A questão dos milagres está relacionada à forma como se acredita em Deus. Se uma pessoa crê e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e está pelo menos em parte fora dessa natureza, então é totalmente aceitável que esse Deus seja capaz de intervir no mundo natural. Isso pode aparecer como um milagre, que seria uma suspensão temporária ou um adiamento das leis que Deus criou. Eu não acredito que Deus faça isso com freqüência – nunca testemunhei algo que possa classificar como um milagre. Se Deus quis mandar uma mensagem para este mundo na figura de seu filho, por meio da Ressurreição e da Virgem Maria, e a isso chamam milagre, não vejo motivo para colocar esses dogmas como um desafio para a ciência. Quem é cristão acredita nesses dogmas – ou então não é cristão. Faz parte do jogo.  
Veja – É possível acreditar nas teorias de Darwin e em Deus ao mesmo tempo?
Collins – Com certeza. Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?  
Veja – Alguns cientistas afirmam que a religião e certas características ligadas à crença em Deus, como o altruísmo, são ferramentas inerentes ao ser humano para garantir a evolução e a sobrevivência. O senhor concorda?
Collins – Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua sobrevivência e seu progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles querem justificar tudo por meio da ciência, e isso acaba sendo usado para difundir o ateísmo.  
Veja – Mas o altruísmo é visto hoje pela genética do comportamento como uma característica herdada pelos genes, assim como a inteligência. O senhor, como geneticista, discorda da genética comportamental?
Collins – Há muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes para explicar os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da evolução para cada um de nós é propagar o nosso DNA e tudo o que está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas não é assim, de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo e a religiosidade. Penso em Oskar Schindler, que se sacrificou por um longo período para salvar judeus, e não pessoas de sua própria fé. Por que coisas desse tipo acontecem? Se estou caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogar e decido ajudá-la mesmo pondo em risco a minha vida, de onde vem esse impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de certo e errado, a moral, que parece ser exclusiva da espécie humana.  
Veja – Muitas religiões são contrárias ao uso de técnicas científicas que poderiam salvar vidas, como a do uso de células-tronco. Como o senhor se posiciona nessa polêmica?
Collins – Temos de ser sensíveis e respeitar as diferentes religiões no que diz respeito aos avanços científicos. Mas interromper as pesquisas científicas ou impedir que uma pessoa com uma doença terrível tenha uma vida melhor só porque a religião não aceita determinado tratamento é antiético. Por outro lado, existem fronteiras que a ciência não deve transpor, como a clonagem humana, que além de tudo não serviria para nada a não ser para nos repugnar. Cada caso tem de ser avaliado isoladamente.  
Veja – Os geneticistas são muitas vezes acusados de brincar de Deus. Como o senhor encara essas críticas?
Collins – Se todos brincássemos de Deus como Deus gostaria, com esperança e amor, ninguém se abateria muito com comentários do gênero. Mas somos seres humanos e temos propensão ao egoísmo e aos julgamentos equivocados. O importante é não reagir de forma exagerada à perspectiva de que as pessoas possam vir a fazer mau uso das descobertas da genética, mas sim focar o lado bom dessa "brincadeira". A maior parte das pesquisas genéticas busca a cura de doenças como câncer, problemas cardíacos, esquizofrenia. São objetivos louváveis. Para evitar o uso impróprio da ciência, o Projeto Genoma Humano apóia um programa que visa a preservar a ética nas pesquisas genéticas e certificar-se de que todas as nossas descobertas beneficiarão as pessoas e a sociedade.  
Veja – O que esperar das pesquisas genéticas no futuro?
Collins – Nos próximos dois ou três anos vamos descobrir os fatores genéticos que criam a propensão ao câncer, ao diabetes e às doenças cardiovasculares. Isso possibilitará que as pessoas saibam que provavelmente vão desenvolver esses males e tomem medidas preventivas contra eles, com a ajuda do médico. Mais à frente, as descobertas das relações entre o genoma e as doenças farão com que os tratamentos e os remédios sejam personalizados, tornando-os mais eficientes e com menos efeitos colaterais.  
Veja – O senhor acredita que Deus ouve suas preces e as atende?
Collins – Eu nunca ouvi Deus falar. Algumas pessoas ouviram. Não acredito que rezar seja um caminho para manipular as intenções de Deus. Rezar é uma forma de entrarmos em contato com Ele. Nesse processo, aprendemos coisas sobre nós mesmos e sobre nossas motivações.