terça-feira, 11 de junho de 2019

O Valor do Trabalho

Dentro do homem há uma luta antagônica e frequente entre as obras do espírito e as da carne. Essa luta persiste em tudo que diz respeito ao trabalho, ao labor. É a luta da disposição contra a preguiça, da produtividade contra a procrastinação, do equilíbrio contra a idolatria ao trabalho, do tempo dedicado à família contra o tempo dedicado a si mesmo, da simplicidade contra a vaidade, do interesse público contra o privado, do pensar no próximo contra o egoísmo. Há dias em que penso que venci a luta. Nesses dias, perdi. Nos dias em que encosto a cabeça no travesseiro e vejo minha real condição, percebo que há alguém que luta por mim. É graça perceber. É graça ser suportado. É graça ser aceito. É graça vencer sabendo que perdeu, afinal, se nossas esperanças se limitam somente ao terreno, somos os mais infelizes dos homens (1 Co. 15:19). Em Cristo venço quando percebo que, por mim mesmo, por minhas forças, sentimentos e vontades, só perderia. Mesmo aparentemente ganhando.

E é assim com o trabalho. Não importa o seu labor: ele não é, meramente, um meio de sustento para sua família ou para você mesmo. Isso é graça, é fruto de serviço. Trabalho é serviço e para servir, não importa o que se faça, é necessário ser vocacionado. A vocação, o chamado, vem sempre de alguém e para servir a alguém. Não é escolha. A escolha é se você vai se comportar como servo ou não.

Eu não escolhi ser professor. Fui levado por esse caminho por uma sequência de acontecimentos que, obviamente, envolveram escolhas pessoais, não as nego. E para quem não crê, tudo bem, se resume a isso. Se não crês, pare a leitura por aqui, inclusive. Mas para os que crêem, é vocação, é chamado.

Ser servidor público é chamado ainda mais evidente, uma vez que além da lei dos que crêem, envolve também a dos que não crêem. Para uns parece fácil: "pra você é bom demais", dizem, ou "ah, ter estabilidade é mamão com açúcar", ou até, "xiii, não precisa nem estudar mais ou se esforçar muito". Pra quem tem consciência do chamado, independentemente de ser de ordem pública ou privada, sabe que antes de tudo a ordem é espiritual. Meu trabalho foi emprestado a mim. Ao fim dos dias em que trabalho só para mim, compreendo perfeitamente o que diz Salomão em Eclesiastes 2: "o trabalho se torna pesado, inútil, sem proveito algum… é correr atrás do vento

Nesta semana completo cinco anos de serviço público. E a escolha que penso que fiz foi a melhor: servir ao meu próximo através do ensino. Escolhi o serviço público e o ensino porque Deus os escolheu primeiro. Escolho todos os dias (ou ao menos tento fazê-lo), porque sei que minha profissão pode ser um instrumento de grande valor nas mãos do Criador para mudar realidades. E isso não é ser melhor/pior do que alguém nem meu labor é mais fácil/difícil do que outro. É apenas mais uma forma de servir a Deus e ao meu próximo.

Finalizo com uma breve porção do livro "A treliça e a videira", de Colin Marshall, Tony Payne, bem como com versículo de Paulo aos Colossenses:

"Os cristãos são incentivados fortemente a trabalhar, não apenas por causa do lugar do trabalho na criação, mas também porque o trabalho (como qualquer outra área da vida) é um ambiente onde servimos a Cristo. Num nível profundo, quando trabalhamos em qualquer serviço, trabalhamos para Cristo. [...] Como cristãos, não trabalhamos para obter autorrealização, fama ou enaltecimento pessoal. Trabalhamos não para nós mesmos e sim para os outros, para servi-los, para que não lhes sejamos um fardo e tenhamos algo para compartilhar [...] Isto não é difícil de entender nem de fazer – a menos, é claro, que você seja uma pessoa pecadora que vive num mundo de pecadores."

"Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens."

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Suspiro

O Suspiro



Meu amparo, com amor
Tu fostes, sem *perguntas*
Colo, em meio à dor
E *respostas*, mesmo em lutas

O teu nome a *chamar*
Quando em choro de criança
Da tua casa a *ouvir*
Na angústia, era esperança

Foi *silêncio*, ao telefone
Que tocava, sem parar
E insistência que tinha nome
Foi compreendida sem *falar*

Teu suspiro, quem diria
O *segredo*, tu mesmo não
A insistência, eu já *sabia*
Era amor, na doação

Bruno Moreno
24/04/2019

terça-feira, 4 de junho de 2019

O Pecado da Autoconfiança


Em todas as ocasiões que viajo a trabalho, faço de tudo para que nada saia errado. Não somente quanto à viagem, mas também quanto à minha ausência em casa: planejo tudo para que minha falta não atrapalhe a rotina do lar. Há alguns dias eu tive que viajar. Meu voo era no início da manhã mas às 3 da madrugada eu já estava de pé com meu dia e minha agenda definida.

Em uma hora e meia antes do voo já havia saído de casa, afinal, teria que parar no meio do caminho para abastecer o carro e, assim, minha esposa não teria o trabalho de fazê-lo. Feito isto, em companhia do meu pai, e já a caminho do aeroporto, acontece o inesperado: um buraco no meio do caminho. Resultado: pneu furado. Olho ao derredor e me atento que estou em uma região conhecida por assaltos durante a madrugada. Olho para o relógio e penso: "vai dar tempo, só preciso ser rápido". Não me lembrei, sequer, de orar, afinal, "não dava tempo". Estava tão compenetrado no meu planejamento, que só pensava em correr contra o tempo.

Outro carro já estava no local, um uber com sua passageira. Meu carro era a segunda vítima daquele buraco. Ao começar a trocar o pneu, sou alertado pelo meu pai: "Filho, não é esse pneu, é o dianteiro!". Foi quando percebemos que, na verdade, os dois pneus estavam furados! Nesse momento, atentei que todos os meus planos poderiam falhar, foi quando pensei em alta voz: "Vou perder meu voo". Temor semelhante ao do meu pai, que concordou comigo. Dois pneus. Um estepe. A conta não batia. Passei a murmurar dentro de mim, afinal, seria melhor que não tivesse abastecido o carro, já que essa foi a causa de desviar o caminho. De que adiantaria o carro estar com tanque cheio para a família mas sem dois pneus? Liguei para familiares, todos dormindo, pensei em milhares de soluções para que meus planos dessem, ainda, certo e, pelo menos, conseguisse pegar meu voo. Foi quando o nosso colega ao lado, o uber que foi vítima do mesmo buraco, finalizou a troca do pneu do seu carro. Sua passageira era uma colega que eu não via há quase 10 anos e que estava indo para o mesmo destino: o aeroporto. Peguei, claro, a carona e consegui chegar a tempo, são e salvo, com todos os meus pertences e em tempo hábil.

O pecado da autoconfiança me cegou a ponto de custar a ver a providência do Deus Eterno - que não cabe no tempo porque é dono dele. Demorei para ver o lado bom da história, mas a graça de Deus tirou as escamas dos meus olhos. Cai na graça do Deus que eu havia colocado em minha agenda apenas para "seguir o plano", em uma breve devocional logo cedo. A idolatria de mim mesmo, da minha agenda, do meu tempo me fez esquecer que tudo isso é como a relva que logo se dissipa (1 Pedro 1:24). Todo o lado bom da história me trouxe à memória que se o Senhor não for o Senhor da minha agenda, em vão eu trabalho (Salmos 127). O remédio contra ansiedade é composto por oração, súplica e gratidão (Filipenses 4:6). Que Deus lhe abençoe e que você tenha um dia em total dependência do Senhor do tempo.