Dentro do homem há uma luta antagônica e frequente entre as obras do espírito e as da carne. Essa luta persiste em tudo que diz respeito ao trabalho, ao labor. É a luta da disposição contra a preguiça, da produtividade contra a procrastinação, do equilíbrio contra a idolatria ao trabalho, do tempo dedicado à família contra o tempo dedicado a si mesmo, da simplicidade contra a vaidade, do interesse público contra o privado, do pensar no próximo contra o egoísmo. Há dias em que penso que venci a luta. Nesses dias, perdi. Nos dias em que encosto a cabeça no travesseiro e vejo minha real condição, percebo que há alguém que luta por mim. É graça perceber. É graça ser suportado. É graça ser aceito. É graça vencer sabendo que perdeu, afinal, se nossas esperanças se limitam somente ao terreno, somos os mais infelizes dos homens (1 Co. 15:19). Em Cristo venço quando percebo que, por mim mesmo, por minhas forças, sentimentos e vontades, só perderia. Mesmo aparentemente ganhando.
E é assim com o trabalho. Não importa o seu labor: ele não é, meramente, um meio de sustento para sua família ou para você mesmo. Isso é graça, é fruto de serviço. Trabalho é serviço e para servir, não importa o que se faça, é necessário ser vocacionado. A vocação, o chamado, vem sempre de alguém e para servir a alguém. Não é escolha. A escolha é se você vai se comportar como servo ou não.
Eu não escolhi ser professor. Fui levado por esse caminho por uma sequência de acontecimentos que, obviamente, envolveram escolhas pessoais, não as nego. E para quem não crê, tudo bem, se resume a isso. Se não crês, pare a leitura por aqui, inclusive. Mas para os que crêem, é vocação, é chamado.
Ser servidor público é chamado ainda mais evidente, uma vez que além da lei dos que crêem, envolve também a dos que não crêem. Para uns parece fácil: "pra você é bom demais", dizem, ou "ah, ter estabilidade é mamão com açúcar", ou até, "xiii, não precisa nem estudar mais ou se esforçar muito". Pra quem tem consciência do chamado, independentemente de ser de ordem pública ou privada, sabe que antes de tudo a ordem é espiritual. Meu trabalho foi emprestado a mim. Ao fim dos dias em que trabalho só para mim, compreendo perfeitamente o que diz Salomão em Eclesiastes 2: "o trabalho se torna pesado, inútil, sem proveito algum… é correr atrás do vento
Nesta semana completo cinco anos de serviço público. E a escolha que penso que fiz foi a melhor: servir ao meu próximo através do ensino. Escolhi o serviço público e o ensino porque Deus os escolheu primeiro. Escolho todos os dias (ou ao menos tento fazê-lo), porque sei que minha profissão pode ser um instrumento de grande valor nas mãos do Criador para mudar realidades. E isso não é ser melhor/pior do que alguém nem meu labor é mais fácil/difícil do que outro. É apenas mais uma forma de servir a Deus e ao meu próximo.
Finalizo com uma breve porção do livro "A treliça e a videira", de Colin Marshall, Tony Payne, bem como com versículo de Paulo aos Colossenses:
Finalizo com uma breve porção do livro "A treliça e a videira", de Colin Marshall, Tony Payne, bem como com versículo de Paulo aos Colossenses:
"Os cristãos são incentivados fortemente a trabalhar, não apenas por causa do lugar do trabalho na criação, mas também porque o trabalho (como qualquer outra área da vida) é um ambiente onde servimos a Cristo. Num nível profundo, quando trabalhamos em qualquer serviço, trabalhamos para Cristo. [...] Como cristãos, não trabalhamos para obter autorrealização, fama ou enaltecimento pessoal. Trabalhamos não para nós mesmos e sim para os outros, para servi-los, para que não lhes sejamos um fardo e tenhamos algo para compartilhar [...] Isto não é difícil de entender nem de fazer – a menos, é claro, que você seja uma pessoa pecadora que vive num mundo de pecadores."
"Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens."
