quarta-feira, 25 de março de 2020

Guilherme de Carvalho - O Nome de Deus no Governo Bolsonaro: uma crítica teológico-política

Recentemente o pastor Guilherme de Carvalho anunciou sua saída do cargo que ocupava no governo federal.




Após alguns dias, ele escreveu uma crítica teológico política ao governo que ele compôs. O textoé longo, mas de alto nível. Muito esclarecedor e profético também diante do pronunciamento de ontem do presidente em rede nacional. Foi por essa razão que decidi resumir e ilustrar a crítica do pastor com o objetivo de ajudar os preguiçosos, crentes e descrentes, progressistas e conservadores. Você, ANCAP, não.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui



Vamos a Guilherme de Carvalho... (repito: todas as imagens foram colocadas por mim e são meramente ilustrativas)

"A ascensão da COVID-19 abriu no governo uma crise sem precedentes, que não se transformou em ruptura porque o compromisso emergencial com a nação se sobrepôs à vergonha e à falta de liderança. O transparecimento da problemática dinâmica interna do governo nessa crise oportuniza um balanço sobre a sua fidelidade teológica, e torna necessária e inadiável uma tomada de posição diante do espírito e da direção que vem sendo assumida pela Presidência do Sr. Jair Messias Bolsonaro, a partir do núcleo ideológico que hoje o orienta.

O movimento pilotado pelo filósofo [Olavo de Carvalho] ganhou forte apoio entre conservadores em geral, e particularmente entre católicos romanos; eventualmente, e não sem serem periodicamente ridicularizados pelo mestre, evangélicos se submeteram não apenas à doutrina conspiracionista, mas também ao páthos agressivo do mentor. E absorveram esse páthos, dos xingamentos e “palavrões” até à versão tupiniquim do discurso antiglobalista e neo-soberanista que hoje se tornou bastante… global.



Muito já se apontou a existência de traços fascistas nesse movimento [o movimento Bolsolavista]. O populismo e o desprezo pelas instituições, aliado ao discurso maniqueísta do “nós versus eles” e ao assassinato de reputações, já foram apontados como marcas inambíguas. Mas isso não ajuda tanto assim; os quatro sinais são reconhecidamente presentes no Lulopetismo, ainda que devidamente cozidos no dendê.



O fato é que, ainda que surfando em uma onda conservadora, o núcleo ideológico bolsolavista não era e nunca foi a própria onda. Milhões de católicos e evangélicos votaram em Bolsonaro, e muitos que votaram no outro lado votaram mais para evitar um mal do que por uma crença no projeto da esquerda. Esse núcleo ideológico não ascenderia ao poder sem a ajuda de militares moderados, católicos comuns, evangélicos, liberais, e quadros técnicos menos interessados em revolução e mais preocupados com soluções. E quando o governo foi efetivamente formado, formou-se como um composto de todas essas forças.


Eu avaliaria o grau de fascismo de um governo em três níveis: em seu páthos, em sua política, e em sua política pública. O governo Bolsonaro não apresenta nenhum dos três de forma consolidada. Em primeiro lugar, não há fascismo na política pública deste governo, e desafio o leitor a provar que exista. Nesse momento de pandemia, como ilustração, não se vê nenhuma ação agressiva de cerceamento de informações ou violação de liberdades civis por iniciativa do executivo. E inúmeras situações-teste já ocorreram sem resultado positivo. A esquerda insiste em gritar isso, mas ninguém liga. Porque todo mundo sabe que é mentira.



A coisa muda de figura quando chegamos à política. Ao longo dos meses tornou-se progressivamente visível a direção anti-institucional, populista e nacionalista no trato governamental com os poderes, com a imprensa, e em alguns contextos, como o MEC. A presidência não honra os “magistrados inferiores” e os outros poderes. Essa política revela uma vontade fascistóide.



Mas o assento efetivo do nosso “protofascismo” tupiniquim é realmente o páthos. Há, no núcleo ideológico, um sentimento autoritário, um sagrado pervertido, uma atitude de desprezo pelo vulnerável, um espírito ressentido e doente. Esse páthos, a bem da verdade, pode acometer a qualquer um. Mas quando se torna coisa doutrinária e inspiração metodológica, é algo realmente perigoso. A política, de um meio de amar e cuidar, torna-se uma extensão da guerra, um instrumento para arrasar, destruir e extirpar. Todos viram esse sentimento estranho evidente na alma do movimento bolsolavista.


Ainda assim, esse páthos, que tem seu epicentro em um elusivo mas real núcleo ideológico e em representantes em vários escalões, não é dominante no governo efetivo. Distinga-se o “governo” da “presidência-núcleo”, e ficará claro que a maioria dos ministros, secretários e diretores são apenas gente conservadora ou liberal que deseja servir ao país, e não prioritariamente fazer a revolução antiglobalista de Olavo de Carvalho. O Governo, no sentido lato, não é fascista.



Ao aceitar o cargo [no governo], ainda que reconhecendo a força do Bolsolavismo, não estava clara para mim a possibilidade ou impossibilidade de reversão dessa ideologia. Àquela altura eu não teria como responder a tal questão; seria necessário me aproximar mais e entender o fenômeno. Quem sabe a realidade ajudaria o governo a tirar o seu Cristianismo do papel? Tive que fazer a aposta. Sim, admito: foi uma aposta otimista. Mas não sou dado a esperar sempre o pior.



Crise após crise, no entanto, dissiparam tais dúvidas. E a crise realmente crucial foi a presente conflagração da COVID-19. Diante dos olhos incréus de todos, o Ministério da Saúde fazia o seu melhor para organizar uma resposta à pandemia enquanto o Presidente dava a ressonância mais pueril à narrativa negacionista do núcleo ideológico. Notava-se a gravidade da situação global e o enorme risco de vida para todos, mas especialmente para os vulneráveis, como os velhos, os portadores de doenças crônicas, os pobres espremidos em milhares de favelas e no transporte público, e os trabalhadores informais que vivem de negócios diários. E, no entanto, a nossa direita protofascista fazia pouco da crise. E promovia uma absolutamente perversa e irresponsável manifestação num fatídico quinze-de-março. Não importa se o Congresso realmente vinha chantageando o Executivo; isso é outro assunto. Esse quinze-de-março viveria eternamente, se Deus não fosse destruir todas as coisas no fim do mundo.


Apenas com muito esforço a Presidência cedeu lugar à ciência, e vimos florescer Mandetta, o homem certo na hora certa. Enquanto isso, prevendo o desastre, Olavo de Carvalho proclamou em seu Instagram a “covardia” do presidente, por não haver “desarmado” desde o início os seus inimigos, e por ter dado ouvidos aos moderados e medrosos. Que essa “covardia”, que na verdade é lucidez, seja lembrada em louvor do Presidente.

Aí está, nua e com as vergonhas expostas, a estrutura do regime: um governo rico de conservadores bem-intencionados e de técnicos competentes, gerido por um presidente que se deixa controlar por um núcleo ideológico que o aliena da sua tarefa. E esse núcleo ideológico colocou a nação em perigo. Esse núcleo precisa ser confrontado e enquadrado pelo Presidente. Bolsonaro precisa destruir o poste-ídolo levantado no Palácio do Planalto, o poste que traz a imagem do seu rosto, e que foi posto lá por ordens do Sumo-Sacerdote Olavo de Carvalho. Bolsonaro precisa deixar o papel de lacrador-mor e se tornar homem de Estado. Do contrário, Senhor Presidente, como cantou certo profeta, God’s Gonna Cut you Down.


Diante desses fatos, e de outros fatos políticos importantes, que ocuparão a minha atenção agora, e que não dizem respeito ao executivo, concluí que deveria deixar o governo. E pedi a minha exoneração. Não porque considere a convicção Cristã como necessariamente incompatível com a participação em um mau governo; longe disso! Insisto que cristãos no governo façam o máximo possível para permanecer e ser a luz do mundo onde estiverem. A questão é que, doravante, eu não poderia mais atuar como servidor público nesse governo e ao mesmo tempo ajudar os Cristãos evangélicos a interpretar o fenômeno como teólogo público. Essa foi uma questão muito pessoal e vocacional; tive que largar o paletó e pegar o cajado por uma demanda pastoral e teológica.


São diversos os fatos que confirmam essa incapacidade, e alisto abaixo seis, sendo seis o número do homem:

Em primeiro lugar, o espírito revanchista e cheio de ressentimento, e carente de qualquer movimento dialógico e reconciliatório, cultivado e propagado pelo núcleo ideológico, patente na queima de reputações, na incivilidade no debate público, e na incapacidade de construir círculos de cooperação a despeito das divergências, constitui clara negação do espírito Cristão que, segundo o exemplo de Cristo, promove a pacificação, a tolerância na diferença, e a comunicação genuína. O pathos do atual governo não é cristão.


Em segundo lugar, o desprezo pelas instituições e a tentativa de governar manipulando as massas contra outras autoridades públicas é autoritarismo, e reproduz o mesmo método neopopulista renovado pelas esquerdas na fase anterior da atual “dispensação” política, método esse que desrespeita o princípio da subsidiariedade e oportuniza o erro messianista. Sabendo que autoridades públicas são servas de Deus e dos homens, o estímulo e a tolerância da presidência da república a claros gestos de idolatria política, oriundos da extrema direita e de apoiadores radicais, constitui negação da visão Cristã do poder político.


Em terceiro lugar, o desprezo pela imprensa e pela comunidade acadêmica e científica e o esforço para desqualificar a autoridade desses campos se mostra uma perigosa faceta do autoritarismo. Muito embora seja indiscutivelmente verdadeiro que amplos setores da imprensa hoje careçam de práticas éticas de comunicação, de genuíno pluralismo, e de capacidade de respeitar posições conservadoras na arena pública, não é função do Estado desqualificar o jornalismo nem a universidade, mas assumir a liderança nacional na construção do diálogo e no fomento a melhores práticas. Embora não tenha havido cerceamento da liberdade de pensamento e expressão, tal desqualificação constitui uma forma de autoritarismo soft, ainda incompatível com a visão Cristã da autoridade como serva da sociedade.

Nota pessoal de Bruno Moreno: este alcool em gel foi produzido pela instituição que trabalho (IFRN) e DOADO para quem mais precisa.

Em quarto lugar, o necessário e louvável amor pela pátria degrada-se em um nacionalismo. Esse nacionalismo lança o compromisso com a história, a tradição e a autoridade, em antítese contra o diálogo internacional com sua ênfase na solidariedade humana, alimentando teorias conspiratórias contra os sistemas de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. Embora tais sistemas manifestem reais desvios ideológicos, e o neo-soberanismo tenha um papel histórico salutar, as pessoas e o planeta não podem ser invisibilizados em nome da “nação”. O nacionalismo, ou idolatria da nacionalidade, constitui clara negação da visão Cristã da soberania e da nação. O “Brasil” não está acima de tudo. A pessoa humana está acima de tudo o que é temporal, pois apenas ela é Imago Dei.


Em quinto lugar, o descuido pela pessoa humana e pelo meio ambiente é incompatível com a ética Cristã do cuidado. Esse descuido se mostra no preconceito, dentro do governo, contra a promoção da dignidade e dos direitos da pessoa humana, no descompromisso com os vulneráveis, e no desinteresse pela conservação ambiental, muitas vezes em nome de um liberalismo econômico e político. A despeito dos honoráveis esforços de setores cristãos do governo para manter vivas essas pautas, a presidência e o núcleo ideológico pouco se importam com elas. Em poucos momentos esse desprezo mostrou-se tão evidente quanto na resposta inconsequente da presidência diante da ameaça de pandemia global. Esse ethos predatório constitui clara negação da visão Cristã da pessoa humana, da sociedade e da Criação. De que adianta ser “pró-vida” e “pró-família”, se o princípio da fraternidade é tão despudoradamente ignorado?


Em sexto lugar, o desprezo pela vida humana se manifesta em uma patológica celebração simbólica da violência. Novamente, reconheço e honro os esforços do ministério da justiça no combate à corrupção e no empoderamento dos sistemas de segurança pública. Mas a celebração inconsequente da violência e do armamentismo e a banalização da morte destroem a capacidade do governo de se comunicar com as faixas da população que mais sofrem com a criminalidade, e legitimam o espírito autoritário nesse sistema. Embora seja Cristão priorizar as vítimas de violência e agir duramente contra o crime, não é papel do Estado concluir o processo de desumanização do criminoso, pois só Deus tem esse poder. E não nos esqueçamos: um partido que aceita ser representado como uma “aliança” feita de balas é um insulto ao Criador da vida.


Diante desses fatos, só posso considerar que, em seu mote “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o Governo Bolsonaro, a partir de seu núcleo ideológico, usa o nome de Deus em vão, violando, entre vários outros, o terceiro mandamento do decálogo. Pois ele usa o nome de Deus, e solicita assim a colaboração das igrejas Cristãs, negando o próprio espírito do Cristianismo. E usar o nome de Deus para fins escusos é exatamente o que é proibido pelo Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés, e de Jesus Cristo.


A incapacidade de honrar a Deus decorre do fato de que o “Deus” do governo Bolsonaro é uma abstração. É um símbolo de autoridade. Embora Deus detenha, de fato, toda a autoridade, sendo o “Todo-Poderoso”, esse Deus é o Pai de Jesus Cristo, segundo o Credo Apostólico. Não compreendemos o Deus Todo-Poderoso sem Jesus Cristo. E Jesus Cristo está ausente do núcleo ideológico. Jesus Cristo, servo dos homens, pacificador, cuidador do rebanho de Deus, onde ele está? Um governo que se preocupa mais com a narrativa antiglobalista do que no impacto da Pandemia sobre os idosos, o que sabe ele sobre Jesus Cristo?


[O Profeta Ezequiel anuncia que a] função das autoridades é cuidar das pessoas. Cristo se entregou pelas pessoas. Um governo Cristão se ocupa da pessoa humana. Mas núcleo do atual governo – não todo ele – se ocupa de uma narrativa. De abstrações morais. Pode ser um governo vagamente “teísta”, mas não é Cristão. Um governo de espírito Cristão seria conservador nos costumes, mas também na imitação de Cristo. Seria anti-aborto e pró-humanização dos presídios; pró-família e pró-conservação ambiental. Se oporia à revolução sexual, como deve ser, mas recusaria toda a mentalidade revolucionária. Falaria em liberdade, sim, mas não esqueceria a igualdade, a fraternidade, e a dignidade humana. Inclusive a dignidade de jornalistas, por chatos e enviesados que sejam.


Pois pelo bem das comunidades, muitos de nós demandarão que o presidente cesse de empregar o Santo Nome de Deus em suas empreitadas, e de confundir as mentes dos Brasileiros. E tão certo quanto vive o Senhor, se tal arrependimento não ocorrer, usaremos todos os meios religiosos possíveis para proteger o rebanho do Senhor contra os lobos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Lembraremos a nossos rebanhos que o Deus do Bolsolavismo é tão falso quanto o Cristo da Mangueira.


Não escrevo tais palavras para municiar a extrema-esquerda. Pelo contrário, gostaria de ver mudanças. Uma reorientação. Uma retomada do espírito cristão, exatamente para não termos que voltar ao suplício da esquerda revolucionária.


Não me iludo; estou ciente de que meus reclames pouco farão para mudar a política deste governo. Mas o governo nem é a minha prioridade. A postura e testemunho da comunidade Cristã diante da pessoa humana: essa é a grande questão. Afinal de contas, o Brasil é importante, mas não está acima de tudo.


O Autor do Texto: Guilherme de Carvalho



sexta-feira, 20 de março de 2020

Dos tempos da Viúva de Sarepta aos tempos de Corona Virus

Um dos nossos desafios neste ano tem sido o de ser frequente na leitura bíblica sequencial e, também, de literaturas cristãs com nossas filhas. Antes de dormir, por exemplo, temos lido o livro "Meninas Corajosas" (da Thomas Nelson Brasil). Este livro relata as histórias bíblicas de mulheres de Deus. Tem sido um desafio e tanto. Isto porque enquanto a mais velha decididamente quer prestar atenção e se interessa por cada detalhe da contação de história com perguntas intrigantes e difíceis de responder, a caçula insiste em atrapalhar fazendo estripulias que denunciam o nível do sono que lhe acomete. Por vezes - e mais frequentemente do que se imagina - a nossa vontade é desistir. Some-se a isso a indisposição pessoal que é gerada tanto pelo cansaço do dia, as preocupações com os trabalhos acumulados que só podem ser executados no terceiro turno (ainda mais em tempos de isolamento) e, inclusive, pela real falta de vontade de querer contar a historinha (podem me julgar). A leitura de ontem foi sobre a última personagem do Velho Testamento: a viúva de Sarepta. A de hoje, por sua vez, sobre a primeira do Novo Testamento: Isabel.

Antes mesmo de anoitecer, à tarde, compartilhei com Malu minha preocupação por aqueles que estão perdendo seus comércios, seus empregos e que estão sendo economicamente afetados por essa crise que nos assola. Fizemos uma breve leitura do livro de Mateus (a parábola do Joio e do Trigo) e oramos pelo motivo em questão. Já à noite, ao colocá-las para dormir, Malu pediu para orar como sempre o faz e as vezes eu nego (me julguem novamente, ela demora demais orando rsrsrs). Foi uma oração profunda e emocionante que, obviamente, sou incapaz de descrever os detalhes e a ênfase dada em cada palavra pronunciada. Tentarei. Ela disse mais ou menos assim ao final da sua oração: "Senhor, faz como tu fez com a viúva da historinha que lemos ontem. Que as pessoas que estão sem ter pão que comer, tenham sua comida multiplicada. Faz milagre nas casas dessas pessoas!".

Aquela oração inocente e verdadeira mexeu com o papai dela. Pensei: "Ela entendeu!". Minha filha de nove anos entendeu o sentido da fé cristã que professamos! Isso tem tudo a ver com o que tenho aprendido nos últimos meses: sobre a intencionalidade nas disciplinas espirituais e o poder do ensinamento às nossas filhas através de práticas litúrgicas e do exemplo (e ai de mim nesse quesito!). Sim, crianças são extremamente voltadas às liturgias (e retire, aqui, todo o peso que essa palavra carrega nos tempos atuais). Crianças amam liturgias, tradições, rotinas. Experimente tomar sorvete em um sábado a tarde qualquer e observe se no sábado seguinte sua criança não lhe pedirá novamente para irem na sorveteria. Quem tem filhos e os leva aos pediatras não se cansa de ouvir que "crianças precisam de R-O-T-I-N-A". Como se sabe, isso serve tanto para hábitos gerais (como escovar dentes, forrar a cama ou ler um pouco diariamente), como também para hábitos espirituais (orar ao acordar, dar graças antes do alimento e ler a Bíblia, por exemplo).

Assim como os bons hábitos orientam a criança sobre noções de higiene e as eventuais consequências de não se escovar os dentes antes de dormir, são os bons hábitos espirituais que orientam (e orientarão) o coração da criança sobre o caminho em que se deve andar e, também, suas consequências em seguí-lo ou não. Esses hábitos servem como bússola de (re)orientação sobre os caminhos que as crianças seguirão ao longo da vida. Os que me lêem e que foram criados em ambientes religiosos me entendem mais do que aqueles que não seguem uma confissão de fé ou que passaram a seguir depois da infância: nos momentos de dúvida, de falta de fé e de medo, são os cânticos da infância que nos vêm à mente. São os versículos que foram aprendidos no ministério infantil que nos alcançam e nos tocam mais profundamente.

Tem sido assim aqui em casa para a glória de Deus. Para ser mais exato e sincero: temos tentado ser assim aqui em casa. Para a glória de Deus. Sei que não alcançaremos a plenitude nunca. Sei, também, que temos errado e erraremos muitas vezes. Outras vezes temos a sensação de que estamos fazendo da forma errada (e isso é mais frequente do que se imagina). Mas uma coisa dentre tantas outras que tenho aprendido nesses nove anos de paternidade é que mesmo com muitos tropeços, mesmo quando nos sentimos perdidos e desorientados, é Deus quem nos conduz. Nossa dependência, nos acertos e nos erros, está no Senhor.

E estar no Senhor implica buscá-lo através das disciplinas espirituais. Se "estar no Senhor" não envolvê-las, a frase passa a ser apenas força de expressão. Ou seja, é através da leitura bíblica, da oração e do culto em comunidade que a nossa bússula pessoal (coração) é calibrado. É na leitura bíblica que Deus fala conosco, nos direcionando por onde andar. É através da oração que nosso coração e nossos anseios são transformados e reorientados. E é no culto comunitário, unidos com pecadores como nós, que revigoramos uns aos outros e somos revigorados através da adoração pública.

A singela oração de minha primogênita me ensinou mais uma vez sobre um desses pilares: o da oração. E me ensinou que através da oraçao Deus operou um grande milagre naquele quarto hoje à noite: Ele usou a oração da pequenina para tirar do seu coraçãozinho o joio da indiferença, da independência e da incredulidade e trocou pelo trigo do amor ao próximo, da dependência do alto e da certeza que Deus opera milagres desde o tempos da viúva de Sarepta até os tempos de Corona Virus. É pra quem crê.

Soli Deo Gloria

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Sugestões de livros sobre o tema:
  • Pescadores de Crianças, C. H. Spurgeon.
  • Você é aquilo que ama. O poder espiritual do hábito, James K. A. Smith