sexta-feira, 20 de março de 2020

Dos tempos da Viúva de Sarepta aos tempos de Corona Virus

Um dos nossos desafios neste ano tem sido o de ser frequente na leitura bíblica sequencial e, também, de literaturas cristãs com nossas filhas. Antes de dormir, por exemplo, temos lido o livro "Meninas Corajosas" (da Thomas Nelson Brasil). Este livro relata as histórias bíblicas de mulheres de Deus. Tem sido um desafio e tanto. Isto porque enquanto a mais velha decididamente quer prestar atenção e se interessa por cada detalhe da contação de história com perguntas intrigantes e difíceis de responder, a caçula insiste em atrapalhar fazendo estripulias que denunciam o nível do sono que lhe acomete. Por vezes - e mais frequentemente do que se imagina - a nossa vontade é desistir. Some-se a isso a indisposição pessoal que é gerada tanto pelo cansaço do dia, as preocupações com os trabalhos acumulados que só podem ser executados no terceiro turno (ainda mais em tempos de isolamento) e, inclusive, pela real falta de vontade de querer contar a historinha (podem me julgar). A leitura de ontem foi sobre a última personagem do Velho Testamento: a viúva de Sarepta. A de hoje, por sua vez, sobre a primeira do Novo Testamento: Isabel.

Antes mesmo de anoitecer, à tarde, compartilhei com Malu minha preocupação por aqueles que estão perdendo seus comércios, seus empregos e que estão sendo economicamente afetados por essa crise que nos assola. Fizemos uma breve leitura do livro de Mateus (a parábola do Joio e do Trigo) e oramos pelo motivo em questão. Já à noite, ao colocá-las para dormir, Malu pediu para orar como sempre o faz e as vezes eu nego (me julguem novamente, ela demora demais orando rsrsrs). Foi uma oração profunda e emocionante que, obviamente, sou incapaz de descrever os detalhes e a ênfase dada em cada palavra pronunciada. Tentarei. Ela disse mais ou menos assim ao final da sua oração: "Senhor, faz como tu fez com a viúva da historinha que lemos ontem. Que as pessoas que estão sem ter pão que comer, tenham sua comida multiplicada. Faz milagre nas casas dessas pessoas!".

Aquela oração inocente e verdadeira mexeu com o papai dela. Pensei: "Ela entendeu!". Minha filha de nove anos entendeu o sentido da fé cristã que professamos! Isso tem tudo a ver com o que tenho aprendido nos últimos meses: sobre a intencionalidade nas disciplinas espirituais e o poder do ensinamento às nossas filhas através de práticas litúrgicas e do exemplo (e ai de mim nesse quesito!). Sim, crianças são extremamente voltadas às liturgias (e retire, aqui, todo o peso que essa palavra carrega nos tempos atuais). Crianças amam liturgias, tradições, rotinas. Experimente tomar sorvete em um sábado a tarde qualquer e observe se no sábado seguinte sua criança não lhe pedirá novamente para irem na sorveteria. Quem tem filhos e os leva aos pediatras não se cansa de ouvir que "crianças precisam de R-O-T-I-N-A". Como se sabe, isso serve tanto para hábitos gerais (como escovar dentes, forrar a cama ou ler um pouco diariamente), como também para hábitos espirituais (orar ao acordar, dar graças antes do alimento e ler a Bíblia, por exemplo).

Assim como os bons hábitos orientam a criança sobre noções de higiene e as eventuais consequências de não se escovar os dentes antes de dormir, são os bons hábitos espirituais que orientam (e orientarão) o coração da criança sobre o caminho em que se deve andar e, também, suas consequências em seguí-lo ou não. Esses hábitos servem como bússola de (re)orientação sobre os caminhos que as crianças seguirão ao longo da vida. Os que me lêem e que foram criados em ambientes religiosos me entendem mais do que aqueles que não seguem uma confissão de fé ou que passaram a seguir depois da infância: nos momentos de dúvida, de falta de fé e de medo, são os cânticos da infância que nos vêm à mente. São os versículos que foram aprendidos no ministério infantil que nos alcançam e nos tocam mais profundamente.

Tem sido assim aqui em casa para a glória de Deus. Para ser mais exato e sincero: temos tentado ser assim aqui em casa. Para a glória de Deus. Sei que não alcançaremos a plenitude nunca. Sei, também, que temos errado e erraremos muitas vezes. Outras vezes temos a sensação de que estamos fazendo da forma errada (e isso é mais frequente do que se imagina). Mas uma coisa dentre tantas outras que tenho aprendido nesses nove anos de paternidade é que mesmo com muitos tropeços, mesmo quando nos sentimos perdidos e desorientados, é Deus quem nos conduz. Nossa dependência, nos acertos e nos erros, está no Senhor.

E estar no Senhor implica buscá-lo através das disciplinas espirituais. Se "estar no Senhor" não envolvê-las, a frase passa a ser apenas força de expressão. Ou seja, é através da leitura bíblica, da oração e do culto em comunidade que a nossa bússula pessoal (coração) é calibrado. É na leitura bíblica que Deus fala conosco, nos direcionando por onde andar. É através da oração que nosso coração e nossos anseios são transformados e reorientados. E é no culto comunitário, unidos com pecadores como nós, que revigoramos uns aos outros e somos revigorados através da adoração pública.

A singela oração de minha primogênita me ensinou mais uma vez sobre um desses pilares: o da oração. E me ensinou que através da oraçao Deus operou um grande milagre naquele quarto hoje à noite: Ele usou a oração da pequenina para tirar do seu coraçãozinho o joio da indiferença, da independência e da incredulidade e trocou pelo trigo do amor ao próximo, da dependência do alto e da certeza que Deus opera milagres desde o tempos da viúva de Sarepta até os tempos de Corona Virus. É pra quem crê.

Soli Deo Gloria

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Sugestões de livros sobre o tema:
  • Pescadores de Crianças, C. H. Spurgeon.
  • Você é aquilo que ama. O poder espiritual do hábito, James K. A. Smith

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