Acredito ser urgente a discussão sobre o papel das redes sociais no adoecimento mental das pessoas, especialmente nos mais jovens. Na computação, há vários estudos que associam o uso indevido de redes sociais com sentimentos negativos. Isto porque em nossa área, é possível definir algoritmos que são capazes de analisar o que as pessoas publicam, curtem ou compartilham e a partir daí avaliar seus sentimentos. Na área da psicologia, do mesmo modo, há estudos que relacionam o uso excessivo das redes sociais a sintomas depressivos.
Foi nesse sentido que em 2017, a Royal Society for Public Health, do Reino Unido [1], publicou um relatório composto por vários estudos relacionados ao uso das mídias sociais. Em resumo, o relatório conclui que o Instagram pode ser considerada a rede social mais prejudicial à saúde mental dos jovens. E isso ocorre, de acordo com os vários estudiosos, porque as pessoas deste público, ao fazerem uso excessivo daquela rede, se sentem ansiosas, deprimidas, com a autoestima baixa e normalmente sem sono (você se identificou?). Vale a pena ler a matéria que a Super Interessante publicou sobre este relatório.
O relatório mostra também uma realidade ainda mais cruel para as mulheres, especialmente as mais jovens. Garotas e mulheres que fazem um uso mais frequente dessas redes demonstram ter uma maior preocupação com a imagem corporal e, consequentemente, uma maior insatisfação com a própria imagem. A busca pelo "corpo perfeito" é descaradamente incentivada por essas redes sociais.
No que diz respeito às crianças, o estudos do referido relatório demonstram o óbvio (e que muitos de nós, pais, insistimos em ignorar): o uso de redes sociais por crianças aumenta a ansiedade e, consequentemente, aumenta de forma assustadora a probabilidade dessas crianças terem depressão severa no futuro. Veja o que expressa o relatório especificamente nesta seção:
"O uso das redes sociais por mais do que duas horas por dia está associado com má avaliação sobre a própria saúde mental, níveis aumentados de sofrimento psicológico e tendência suicida"
E aí, você vai continuar deixando seu filho/filha usar as redes sociais livremente e de forma excessiva?
Há estudos, ainda, que mencionam que os adolescentes e jovens da geração atual têm tido um amadurecimento tardio em razão do uso excessivo das redes sociais [2]. Ou seja, nossos jovens e adolescentes apresentam padrões de comportamento que não condizem com suas faixas etárias. Segundo este estudo, os jovens de 18 anos da geração atual, por exemplo, têm se comportado como os adolescentes de 15 anos da geração que não usava redes sociais. Mais do que isso: a infância agora se estende até o ensino médio. E um dos culpados, sim, é o mau uso das mídias sociais em geral.
Um dos culpados pelo agravante na ansiedade gerada por esses aplicativos é a presença do "feed de notícias". Burke e Kraut [3] identificaram que a rolagem (infinita) do feed pode gerar maior ansiedade nos usuários. Isto porque o usuário que está olhando o feed não está interagindo com ninguém, como seria em um mensageiro qualquer como o Whatsapp ou Telegram, por exemplo. Isso serve de alerta e de auto-avaliação: como você se comporta diante do feed?
Mas não é a ausência do feed de notícias que inibe os usuários de terem problemas de ansiedade. O segredo está no autocontrole. Usuários do Whatsapp e Telegram, que não tem o feed, não estão excluídos dos problemas de ansiedade. Se utilizados de forma não moderada, e se utilizados sem se compreender suas funcionalidades básicas, estes aplicativos também podem gerar desconfortos relacionados à saúde mental. Church e de Oliveira [4], por exemplo, observaram que o recurso de "Confirmação de Leitura" do Whatsapp gera bastante expectativa nas pessoas. Eles alertam para o óbvio: uma mensagem aberta não indica necessariamente que o receptor da mesma a leu. Esta simples incompreensão de muitos usuários é motivo de bastante stress no uso do aplicativo. Quem nunca disse ou ouviu o argumento de que: "você leu minha mensagem no whatsapp mas não respondeu!!!"?
Confirmando este resultado, Blabst, Nicole e Diefenbach [5] notaram que os usuários que desativam o recurso de "Confirmação de Leitura" e o recurso "Visto por último" têm menos stress ao utilizar a ferramenta. Ou seja, desativá-los não significa somente uma questão de privacidade, mas também de cuidado com a própria saúde mental e/ou das pessoas com as quais você se relaciona.
Apesar disso tudo, os pesquisadores desses estudos concordam que aplicativos de redes sociais podem contribuir de forma positiva se usados de forma consciente. Os pontos positivos incluem desde o suporte emocional que pode ser encontrado nesses espaços, o estreitamento de laços sociais com amigos próximos e familiares, o auxílio que esse estreitamento oferece às pessoas com sintomas de solidão e depressão, além da sensação de pertencimento à uma comunidade. Além disso, um desses estudos também cita que o apropriamento de informações sobre condições de saúde é um ponto bastante positivo das redes sociais (claro, isso também pode trazer muitos danos à saúde pública, a depender dos "doutores de Youtube" que você segue).
Por fim, é importante pontuar que em boa parte desses estudos é ressaltado que os efeitos negativos foram identificados de forma mais evidente exatamente naqueles usuários que utilizam essas ferramentas excessivamente. É por isso que considero bastante importante que estejamos atentos ao tempo que gastamos utilizando às ferramentas online. Faço frequentemente um exercício pessoal comparando o tempo que gasto com as redes e com outras atividades que considero importante na teoria, mas que não demonstro isso na prática. Por exemplo: se considero a leitura uma importante atividade para meu desenvolvimento pessoal, por quê gasto 10 minutos lendo diariamente, mas utilizo o Instagram durante 2 horas por dia? Redefina seu uso, cuide de sua saúde mental e reorganize suas prioridades. Esse exercício é diário e deve ser intencional.
Bruno Moreno
09 de outubro de 2020
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[1] Royal Society for Public Health, 2017 #StatusOfMind. Disponível em: https://www.rsph.org.uk/our-work/campaigns/status-of-mind.html
[2] 1. Wingo JL. Book review: iGen: Why today’s super-connected kids are growing up less rebellious, more tolerant, less happy—and completely unprepared for adulthood (and what that means for the rest of us). Christian Education Journal. 2019;16(1):150-154.
[3] Moira Burke, Robert E. Kraut, The Relationship Between Facebook Use and Well-Being Depends on Communication Type and Tie Strength, Journal of Computer-Mediated Communication, Volume 21, Issue 4, 1 July 2016, Pages 265–281, https://doi.org/10.1111/jcc4.12162
[4] Church, K., & de Oliveira, R. (2013) What's up with whatsapp?: comparing mobile instant messaging behaviors with traditional SMS. 15th international conference on Human-computer interaction with mobile devices and services, Munich, August 30th, 2013, (pp. 352-361). ACM, Munich.
[5] Blabst, Nicole and S. Diefenbach. “WhatsApp and Wellbeing: A study on WhatsApp usage, communication quality and stress.” BCS HCI (2017).