domingo, 11 de outubro de 2020

Redes Sociais e a Saúde Mental

Acredito ser urgente a discussão sobre o papel das redes sociais no adoecimento mental das pessoas, especialmente nos mais jovens. Na computação, há vários estudos que associam o uso indevido de redes sociais com sentimentos negativos. Isto porque em nossa área, é possível definir algoritmos que são capazes de analisar o que as pessoas publicam, curtem ou compartilham e a partir daí avaliar seus sentimentos. Na área da psicologia, do mesmo modo, há estudos que relacionam o uso excessivo das redes sociais a sintomas depressivos.


Foi nesse sentido que em 2017, a Royal Society for Public Health, do Reino Unido [1], publicou um relatório composto por vários estudos  relacionados ao uso das mídias sociais. Em resumo, o relatório conclui que o Instagram pode ser considerada a rede social mais prejudicial à saúde mental dos jovens. E isso ocorre, de acordo com os vários estudiosos, porque as pessoas deste público, ao fazerem uso excessivo daquela rede, se sentem ansiosas, deprimidas, com a autoestima baixa e normalmente sem sono (você se identificou?). Vale a pena ler a matéria que a Super Interessante publicou sobre este relatório.



O relatório mostra também uma realidade ainda mais cruel para as mulheres, especialmente as mais jovens. Garotas e mulheres que fazem um uso mais frequente dessas redes demonstram ter uma maior preocupação com a imagem corporal e, consequentemente, uma maior insatisfação com a própria imagem. A busca pelo "corpo perfeito" é descaradamente incentivada por essas redes sociais.


No que diz respeito às crianças, o estudos do referido relatório demonstram o óbvio (e que muitos de nós, pais, insistimos em ignorar): o uso de redes sociais por crianças aumenta a ansiedade e, consequentemente, aumenta de forma assustadora a probabilidade dessas crianças terem depressão severa no futuro. Veja o que expressa o relatório especificamente nesta seção:


"O uso das redes sociais por mais do que duas horas por dia está associado com má avaliação sobre a própria saúde mental, níveis aumentados de sofrimento psicológico e tendência suicida"


E aí, você vai continuar deixando seu filho/filha usar as redes sociais livremente e de forma excessiva? 


Há estudos, ainda, que mencionam que os adolescentes e jovens da geração atual têm tido um amadurecimento tardio em razão do uso excessivo das redes sociais [2]. Ou seja, nossos jovens e adolescentes apresentam padrões de comportamento que não condizem com suas faixas etárias. Segundo este estudo, os jovens de 18 anos da geração atual, por exemplo, têm se comportado como os adolescentes de 15 anos da geração que não usava redes sociais. Mais do que isso: a infância agora se estende até o ensino médio. E um dos culpados, sim, é o mau uso das mídias sociais em geral. 


Um dos culpados pelo agravante na ansiedade gerada por esses aplicativos é a presença do "feed de notícias". Burke e Kraut [3] identificaram que a rolagem (infinita) do feed pode gerar maior ansiedade nos usuários. Isto porque o usuário que está olhando o feed não está interagindo com ninguém, como seria em um mensageiro qualquer como o Whatsapp ou Telegram, por exemplo. Isso serve de alerta e de auto-avaliação: como você se comporta diante do feed?


Mas não é a ausência do feed de notícias que inibe os usuários de terem problemas de ansiedade. O segredo está no autocontrole. Usuários do Whatsapp e Telegram, que não tem o feed, não estão excluídos dos problemas de ansiedade. Se utilizados de forma não moderada, e se utilizados sem se compreender suas funcionalidades básicas, estes aplicativos também podem gerar desconfortos relacionados à saúde mental. Church e de Oliveira [4], por exemplo, observaram que o recurso de "Confirmação de Leitura" do Whatsapp gera bastante expectativa nas pessoas. Eles alertam para o óbvio: uma mensagem aberta não indica necessariamente que o receptor da mesma a leu. Esta simples incompreensão de muitos usuários é motivo de bastante stress no uso do aplicativo. Quem nunca disse ou ouviu o argumento de que: "você leu minha mensagem no whatsapp mas não respondeu!!!"?


Confirmando este resultado, Blabst, Nicole e Diefenbach [5] notaram que os usuários que desativam o recurso de "Confirmação de Leitura" e o recurso "Visto por último" têm menos stress ao utilizar a ferramenta. Ou seja, desativá-los não significa somente uma questão de privacidade, mas também de cuidado com a própria saúde mental e/ou das pessoas com as quais você se relaciona.


Apesar disso tudo, os pesquisadores desses estudos concordam que aplicativos de redes sociais podem contribuir de forma positiva se usados de forma consciente. Os pontos positivos incluem desde o suporte emocional que pode ser encontrado nesses espaços, o estreitamento de laços sociais com amigos próximos e familiares, o auxílio que esse estreitamento oferece às pessoas com sintomas de solidão e depressão, além da sensação de pertencimento à uma comunidade. Além disso, um desses estudos também cita que o apropriamento de informações sobre condições de saúde é um ponto bastante positivo das redes sociais (claro, isso também pode trazer muitos danos à saúde pública, a depender dos "doutores de Youtube" que você segue). 


Por fim, é importante pontuar que em boa parte desses estudos é ressaltado que os efeitos negativos foram identificados de forma mais evidente exatamente naqueles usuários que utilizam essas ferramentas excessivamente. É por isso que considero bastante importante que estejamos atentos ao tempo que gastamos utilizando às ferramentas online. Faço frequentemente um exercício pessoal comparando o tempo que gasto com as redes e com outras atividades que considero importante na teoria, mas que não demonstro isso na prática. Por exemplo: se considero a leitura uma importante atividade para meu desenvolvimento pessoal, por quê gasto 10 minutos lendo diariamente, mas utilizo o Instagram durante 2 horas por dia? Redefina seu uso, cuide de sua saúde mental e reorganize suas prioridades. Esse exercício é diário e deve ser intencional.


Bruno Moreno

09 de outubro de 2020


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[1] Royal Society for Public Health, 2017 #StatusOfMind. Disponível em: https://www.rsph.org.uk/our-work/campaigns/status-of-mind.html

[2] 1. Wingo JL. Book review: iGen: Why today’s super-connected kids are growing up less rebellious, more tolerant, less happy—and completely unprepared for adulthood (and what that means for the rest of us). Christian Education Journal. 2019;16(1):150-154.

[3] Moira Burke, Robert E. Kraut, The Relationship Between Facebook Use and Well-Being Depends on Communication Type and Tie Strength, Journal of Computer-Mediated Communication, Volume 21, Issue 4, 1 July 2016, Pages 265–281, https://doi.org/10.1111/jcc4.12162

[4] Church, K., & de Oliveira, R. (2013) What's up with whatsapp?: comparing mobile instant messaging behaviors with traditional SMS. 15th international conference on Human-computer interaction with mobile devices and services, Munich, August 30th, 2013, (pp. 352-361). ACM, Munich.

[5] Blabst, Nicole and S. Diefenbach. “WhatsApp and Wellbeing: A study on WhatsApp usage, communication quality and stress.” BCS HCI (2017).


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Estamos livres!

Acordamos em um país livre. E me agradeçam também por isso, talkei? 

Essa era a verdade que liberta, que vocês tanto ignoraram. Em apenas dois anos o Brasil está livre da corrupção! 

Para que um COAF que impede lavagem de dinheiro? Estamos livres!

Para que um Ministério Público independente? Estamos livres! 

Para que uma Polícia Federal forte? Estamos livres!

Para que, afinal, uma Lava-Jato? ESTAMOS LIVRES, MÊU!!! ESTAMOS LIVRES!!!

Vejam que evolução: universidades deixaram de ensinar ideologia.

A de gênero? Tá repreendido!!!

A ciência se rendeu à gripezinha (aliás, currículo acadêmico agora é só CTRL+C, CTRL+V).

As igrejas receberam ofertas volumosas. O que nos ajuda ainda mais a doutrinar sem a necessidade das patéticas escolas bíblicas dominicais! 

Quantos homens e mulheres de Deus estão no governo? Resposta de oração!

Temos pastores ministros de Estado. Quem diria!? Brevemente, oxalá, ou melhor, se deux permitir, um sacerdote terrivelmente cristão fará parte do STF! 

É por isso, meus irmãos e irmãs, que o Renan, o Gilmar e o Toffoli se converteram!

E eu tenho fé que não teremos apenas orações antes de cada sessão. Iremos além: colocaremos a declaração dos cinco solas na parede da esquerda, um quadro de um shofar na da direita e, claro, trocaremos a Cruz que fica atrás do comunista e incrédulo do Fux, que pensa que não somos mais livres, pela imagem do Messias que, sim, sangrou por nós e operou o grande milagre: estamos livres!

Bruno Moreno
08 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Abismo de comunicação nas redes

 

A depender da forma como a comunicação ocorre, o uso das redes sociais pode impactar as nossas vidas de maneira positiva ou negativa. Os bons resultados são variados: as ferramentas online aproximam pessoas, permitem o compartilhamento de assuntos em comum, melhoram a prestação de serviços nas mais distintas áreas e possibilitam que toda pessoa com um smartphone em mãos tenha poder de voz sobre diversos assuntos. No entanto, as redes também têm sido a causa de alguns problemas, sejam eles de relacionamento pessoal, de saúde mental dos seus usuários, além de questões relacionadas à privacidade e ao desenvolvimento pessoal. Quem me conhece sabe que gosto bastante de me comunicar e expor minhas opiniões sobre assuntos que são do meu interesse. Decidi, em parte por esta razão, estudar de verdade o tema a partir de 2011, em minha tese de doutorado, quando defini um modelo de análise de comportamento de usuários de redes sociais baseadas em localização. Ultimamente, tenho refletido bastante sobre algumas questões relacionadas ao uso das redes sociais e tenho tentado aplicar o resultado dessas reflexões no meu dia a dia. Este é, portanto, o primeiro artigo de uma série em que discuto alguns aspectos dessas reflexões. Então, como dizem no Twitter, segue o fio! :)


Neste primeiro artigo eu gostaria de abordar o abismo que as redes sociais têm criado em nossa comunicação diária. Isso é especialmente interessante - e triste - já que essas ferramentas deveriam aproximar as pessoas. O primeiro aspecto que precisamos considerar diz respeito ao comportamento que seria adequado, ou aceitável, nesses espaços digitais.


Assim como os espaços físicos que frequentamos, os espaços digitais possuem regras, sejam elas explícitas ou não. Saber se comportar nesses espaços é de suma importância para que sejamos "ouvidos", compreendidos. Para isso, minha primeira sugestão é ficar atento ao que se chama Mito de Mehrabian, ou Regra 7-38-55 [1][2]. Em minha opinião, se todos estivéssemos atentos ao que diz esta regra, teríamos evitado parte de nossos conflitos em ferramentas de redes sociais.



O Mito de Mehrabian diz, basicamente, que a comunicação acontece de forma eficiente por três meios concorrentes: visual, sonoro e, claro, através do próprio conteúdo da mensagem. De acordo com Mehrabian, a coerência de uma comunicação efetiva depende 55% da linguagem corporal/facial, 38% do tom de voz e 7% das palavras proferidas. Apesar de existirem algumas controvérsias relacionadas ao referido estudo, penso que ele demonstra uma das causas de muitos dos nossos conflitos em redes sociais. Aquele debate sobre a pandemia, por exemplo, ou sobre qualquer outro tema polêmico em um grupo da família, pode ter gerado conflito exatamente porque os emissores e receptores das mensagens não puderam observar as expressões faciais uns dos outros enquanto discutiam.


A lição que o Mito de Mehrabian tem me ensinado é a de que sempre que estiver tratando sobre temas que possivelmente podem afetar os sentimentos das pessoas - e, claro, se minha opinião é realmente relevante - é melhor que eu envie um áudio pois, assim, estarei garantindo que os receptores interpretem sem maiores problemas pelo menos 45% da mensagem (7% do conteúdo do discurso + 38% relativos ao tom de voz). 




Pode ser que estando atentos à regra 7-38-55 ainda consigamos diminuir esse abismo. Mas essa tentativa de nada valerá se no mundo físico continuarmos fazendo parte da legião de imbecis do mundo virtual. Por "legião de imbecis" não entenda na mesma perspectiva em que Umberto Eco teria usado o termo (embora valha a pena ler a respeito). O ponto é que temos preferido o contato virtual ao físico e, sim, isso é de uma imbecilidade sem tamanho. Não é incomum estarmos em uma mesa de restaurante com amigos ou reunidos com familiares e, ao mesmo tempo, estarmos dando mais valor ao que se encontra nas redes do que ao que acontece "no mundo real". Estamos frequentemente "onlines" em nossas redes sociais virtuais, mas "offlines" em nossas redes sociais físicas. E é por isso que, por vezes, esse abismo só tende a aumentar. Não é contraditório que ferramentas que deveriam melhorar nossa comunicação e nossos relacionamentos estejam nos trazendo danos?


Lembro-me de uma cena em que vivi no ensino médio, em meados dos anos 2000, em que um professor de literatura teria "surtado" ao ver um celular de uma aluna carregando em sala de aula. Veja bem, naquela época ninguém via necessidade, sequer, de levar um celular para a escola, até porque pouquíssimas pessoas tinham um celular. Carregar um aparelho de celular em plena sala de aula, então, nem se fala. Além de telefones nas coordenações, toda escola tinha um ou mais "orelhões" que permitiam que seus alunos entrassem em contato com quem quisessem.



Hoje, como professor, não vejo somente celulares carregando em sala de aula, como também alunos utilizando seus aparelhos para os mais variados fins não somente dentro da sala, mas enquanto a aula ocorre. Eu mesmo, como professor, não interrompi minhas aulas somente para solicitar que alunos parem de fazer uso desses aparelhos, mas também já as interrompi para atender ligações. Aliás, fiz mais do que isso, já dei espiadas rápidas no whatsapp para ver se encontraria algo mais interessante do que a minha própria aula. E assim como nas rodas de amigos e nos encontros familiares, se perguntado sobre o uso inconveniente do aparelho em momento inapropriado, as respostas que dou possivelmente são semelhantes às mesmas que talvez você dê e às que escuto: "desculpa, é que é algo urgente". E, talvez, seja por causa de nossas urgências não importantes que, no futuro, precisaremos encontrar desculpas melhores para problemas realmente importantes de relacionamento.


Bruno Moreno

02 de outubro de 2020


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[1] Mehrabian, A., & Wiener, M. (1967). Decoding of inconsistent communications. Journal of Personality and Social Psychology, 6(1), 109–114. https://doi.org/10.1037/h0024532

[2] Mehrabian, A., & Ferris, S. R. (1967). Inference of attitudes from nonverbal communication in two channels. Journal of Consulting Psychology, 31(3), 248–252. https://doi.org/10.1037/h0024648