sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Abismo de comunicação nas redes

 

A depender da forma como a comunicação ocorre, o uso das redes sociais pode impactar as nossas vidas de maneira positiva ou negativa. Os bons resultados são variados: as ferramentas online aproximam pessoas, permitem o compartilhamento de assuntos em comum, melhoram a prestação de serviços nas mais distintas áreas e possibilitam que toda pessoa com um smartphone em mãos tenha poder de voz sobre diversos assuntos. No entanto, as redes também têm sido a causa de alguns problemas, sejam eles de relacionamento pessoal, de saúde mental dos seus usuários, além de questões relacionadas à privacidade e ao desenvolvimento pessoal. Quem me conhece sabe que gosto bastante de me comunicar e expor minhas opiniões sobre assuntos que são do meu interesse. Decidi, em parte por esta razão, estudar de verdade o tema a partir de 2011, em minha tese de doutorado, quando defini um modelo de análise de comportamento de usuários de redes sociais baseadas em localização. Ultimamente, tenho refletido bastante sobre algumas questões relacionadas ao uso das redes sociais e tenho tentado aplicar o resultado dessas reflexões no meu dia a dia. Este é, portanto, o primeiro artigo de uma série em que discuto alguns aspectos dessas reflexões. Então, como dizem no Twitter, segue o fio! :)


Neste primeiro artigo eu gostaria de abordar o abismo que as redes sociais têm criado em nossa comunicação diária. Isso é especialmente interessante - e triste - já que essas ferramentas deveriam aproximar as pessoas. O primeiro aspecto que precisamos considerar diz respeito ao comportamento que seria adequado, ou aceitável, nesses espaços digitais.


Assim como os espaços físicos que frequentamos, os espaços digitais possuem regras, sejam elas explícitas ou não. Saber se comportar nesses espaços é de suma importância para que sejamos "ouvidos", compreendidos. Para isso, minha primeira sugestão é ficar atento ao que se chama Mito de Mehrabian, ou Regra 7-38-55 [1][2]. Em minha opinião, se todos estivéssemos atentos ao que diz esta regra, teríamos evitado parte de nossos conflitos em ferramentas de redes sociais.



O Mito de Mehrabian diz, basicamente, que a comunicação acontece de forma eficiente por três meios concorrentes: visual, sonoro e, claro, através do próprio conteúdo da mensagem. De acordo com Mehrabian, a coerência de uma comunicação efetiva depende 55% da linguagem corporal/facial, 38% do tom de voz e 7% das palavras proferidas. Apesar de existirem algumas controvérsias relacionadas ao referido estudo, penso que ele demonstra uma das causas de muitos dos nossos conflitos em redes sociais. Aquele debate sobre a pandemia, por exemplo, ou sobre qualquer outro tema polêmico em um grupo da família, pode ter gerado conflito exatamente porque os emissores e receptores das mensagens não puderam observar as expressões faciais uns dos outros enquanto discutiam.


A lição que o Mito de Mehrabian tem me ensinado é a de que sempre que estiver tratando sobre temas que possivelmente podem afetar os sentimentos das pessoas - e, claro, se minha opinião é realmente relevante - é melhor que eu envie um áudio pois, assim, estarei garantindo que os receptores interpretem sem maiores problemas pelo menos 45% da mensagem (7% do conteúdo do discurso + 38% relativos ao tom de voz). 




Pode ser que estando atentos à regra 7-38-55 ainda consigamos diminuir esse abismo. Mas essa tentativa de nada valerá se no mundo físico continuarmos fazendo parte da legião de imbecis do mundo virtual. Por "legião de imbecis" não entenda na mesma perspectiva em que Umberto Eco teria usado o termo (embora valha a pena ler a respeito). O ponto é que temos preferido o contato virtual ao físico e, sim, isso é de uma imbecilidade sem tamanho. Não é incomum estarmos em uma mesa de restaurante com amigos ou reunidos com familiares e, ao mesmo tempo, estarmos dando mais valor ao que se encontra nas redes do que ao que acontece "no mundo real". Estamos frequentemente "onlines" em nossas redes sociais virtuais, mas "offlines" em nossas redes sociais físicas. E é por isso que, por vezes, esse abismo só tende a aumentar. Não é contraditório que ferramentas que deveriam melhorar nossa comunicação e nossos relacionamentos estejam nos trazendo danos?


Lembro-me de uma cena em que vivi no ensino médio, em meados dos anos 2000, em que um professor de literatura teria "surtado" ao ver um celular de uma aluna carregando em sala de aula. Veja bem, naquela época ninguém via necessidade, sequer, de levar um celular para a escola, até porque pouquíssimas pessoas tinham um celular. Carregar um aparelho de celular em plena sala de aula, então, nem se fala. Além de telefones nas coordenações, toda escola tinha um ou mais "orelhões" que permitiam que seus alunos entrassem em contato com quem quisessem.



Hoje, como professor, não vejo somente celulares carregando em sala de aula, como também alunos utilizando seus aparelhos para os mais variados fins não somente dentro da sala, mas enquanto a aula ocorre. Eu mesmo, como professor, não interrompi minhas aulas somente para solicitar que alunos parem de fazer uso desses aparelhos, mas também já as interrompi para atender ligações. Aliás, fiz mais do que isso, já dei espiadas rápidas no whatsapp para ver se encontraria algo mais interessante do que a minha própria aula. E assim como nas rodas de amigos e nos encontros familiares, se perguntado sobre o uso inconveniente do aparelho em momento inapropriado, as respostas que dou possivelmente são semelhantes às mesmas que talvez você dê e às que escuto: "desculpa, é que é algo urgente". E, talvez, seja por causa de nossas urgências não importantes que, no futuro, precisaremos encontrar desculpas melhores para problemas realmente importantes de relacionamento.


Bruno Moreno

02 de outubro de 2020


--

[1] Mehrabian, A., & Wiener, M. (1967). Decoding of inconsistent communications. Journal of Personality and Social Psychology, 6(1), 109–114. https://doi.org/10.1037/h0024532

[2] Mehrabian, A., & Ferris, S. R. (1967). Inference of attitudes from nonverbal communication in two channels. Journal of Consulting Psychology, 31(3), 248–252. https://doi.org/10.1037/h0024648


Nenhum comentário:

Postar um comentário