10 anos de uma experiência atemporal
Imerso por uma grande (e variada) quantidade de demandas, tive que escrever, na última sexta, algumas linhas para um documento em que deveria apresentar, brevemente, minha história acadêmica, como parte de uma capacitação que estou participando. Ao escrever, me deparei com o fato de que há exatos 10 anos, ou seja, no dia 07 de maio de 2012, eu estava me despedindo de familiares e amigos no Brasil para "embarcar" em uma grande aventura: realizar parte do meu doutorado em uma terra tão fria que me faria sentir calor no atual inverno chuvoso de 24 graus paraibano.
Há 10 anos eu iniciava não somente uma vida de imersão em reflexões acadêmicas ou na língua inglesa, mas também no frio de 40 graus negativos que só pôde ser suportado porque eu tive a decisão de não ir só: fui aquecido pelo amor de minha esposa e de minha primeira filha, com seus 15 meses de vida. Para mim foi inegociável partir sem elas. Ir só deixaria de ser quem eu era e evitaria ser o homem que eu me tornei, a família que nos tornamos. A tentação de ter mais produtividade, de viver mais confortável, de conhecer novos lugares e novas pessoas com mais liberdade, veio não somente através de vontades internas, mas por meio de sugestões de vozes íntimas, próximas e, inclusive, mais experientes do que eu. Louvo a Deus por não ter titubeado, por não termos titubeado. Fomos ao Canadá - juntos - realizar mais um sonho de nossa família porque sonho bom é sonho que se sonha junto. E quando se realiza junto, melhor ainda!
Só percebi o tamanho do desafio que eu enfrentaria quando no vôo internacional fui abordado pela aeromoça da Air Canada me oferecendo um tal de "beef or chicken". Ora, achei que o inglês de ginásio, aprimorado com o inglês técnico de graduação e mestrado me faria comunicar bem, mas não: eu definitivamente não sabia o que a aeromoça estava nos oferecendo. Até que com o meu "What!?" como resposta, ela me perguntou, de forma ríspida, e com um sotaque português de Portugal, se eu queria frango ou bife.
Aquele simples fato, provavelmente ainda voando sobre solo brasileiro, me fez sentir não somente uma vergonha imensa, mas também muito medo do desconhecido. Olhei para minha esposa, que estava com nossa filha no colo, e lembro-me exatamente da sensação de estar colocando-as em risco. Eu estava levando-as para uma terra que, sequer, eu conseguiria pedir comida! Um doutorando completamente analfabeto em terra estranha.
Naquele momento tirei de minha pochete um mini-dicionário Michaelis (me respeite que eu sou do tempo que Google Tradutor era mato!) e comecei a lê-lo avidamente como se fosse capaz de aprender em dez horas de voo o inglês que não aprendi ao longo da vida. E, assim, depois de uma conexão em São Paulo e em Toronto, chegamos ao nosso destino final: Ottawa, a capital do Canadá.
Iniciamos nossa vida no hemisfério norte alugando um quartinho em um apartamento de classe média alta de uma família de brasileiros que conhecemos a distância. Aquela família foi uma indicação de um professor do Brasil. Naquela situação, tivemos o apoio necessário para iniciar a experiência a três. Ficamos um curto período de dois meses com aquela família que nos recebeu e, naquele tempo, Mayara chegou a, inclusive, fazer alguns trabalhos de jardinagem. O dia todo fora de casa para ganhar 40 dólares. Batalhamos juntos para ter sustento, afinal, era uma bolsa de estudo para uma pessoa solteira que estava sustentando três.
Batalhamos, juntos, também, por ambos tentarmos estudar inglês e fazer Malu se socializar com outras crianças em parques públicos. Estávamos aprendendo a viver no Canadá e vários desafios já demonstraram ser intransponíveis para nós, como o desafio de fazer Malu ficar em um daycare.
Passados os dois primeiros meses e quando já nos sentíamos relativamente adaptados enfrentamos, talvez, o maior desafio daquele período: por razões que até hoje desconhecemos fomos convidados a nos mudar para outro lugar. Minha bolsa tinha vigência de seis meses, já tinham se passado dois. Encontrar um apartamento que fosse capaz de nos comportar, que coubesse no nosso orçamento e que fosse possível alugá-lo por apenas quatro meses parecia, também, ser uma missão impossível. Teríamos que encontrar uma sublocação. Seria um "achado", como dizemos e, com certeza, não sairia por menos de mil dólares. Praticamente o dobro do que eu estavamos pagando no quartinho.
Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que esse foi, particularmente, um dos maiores desafios vividos no Canadá. O misto de sensações foi terrível: as lembranças das sugestões internas e externas para que eu fosse só vinham em mente, o sentimento de irresponsabilidade de estar colocando minha esposa e filha de 15 meses em meio a tudo isso e o medo de não conseguir alugar um apartamento que se adequasse às nossas condições chegou a ser, em certos momentos, desesperador. A cada novo apartamento visitado, a cada nova negativa, o desespero aumentava. Lembro-me de um apartamento que encontrei, que se adequava às nossas condições mas que não era exatamente um apartamento normal como conhecemos, mas sim um basement (subsolo) de uma casa muito, mas muito distante da cidade. Uma casa sombria que morava apenas um senhor de meia idade. Em minha mente seria um cenário completo para um filme de terror. Naquela situação não colocaria minha família e voltaria para o Brasil na certeza que teria feito o correto. Mas não foi necessário.
Depois de muita busca, muitas portas na cara, e de uma semana completa sem trabalhar, andando de rua em rua, encontrei um apartamento. Um bom apartamento, diga-se de passagem. Relativamente próximo à universidade, a parques, supermercados, shopping e com transporte público na rua. O tamanho? No máximo 40 metros quadrados, talvez um pouco mais. Sala e cozinha conjugados com a suíte por vultuosos CAD$ 925,00. Faça as contas: a bolsa de estudos era no valor de CAD$ 1.400,00. Sobrava CAD$ 475,00 para alimentação, transporte e lazer de dois adultos e uma criança. Uma loucura! Mas foi a melhor oportunidade que encontramos. Nos endividamos, familiares ajudaram, mas em nossa mente sempre foi: "o momento era agora", afinal, eu estava fazendo meu doutorado e, no alto dos meus 27 anos, e Mayara com seus 24, ainda teríamos tempo suficiente de vida, e trabalho, para pagar as contas.
Não pense que não vieram dúvidas no meio do caminho. Não pense que, no meio do caminho, não vieram lembranças das tentações de ter ido só. Mas em meio às dúvidas, sempre fomos alcançados por doses certas de certezas do que não víamos. De fé.
Pense sobre tudo que envolve uma mudança de quem saiu de um quartinho para um apartamento (tudo bem, na metragem não mudava muita coisa). Além da própria mudança com uma criança, precisávamos de todos os utensílios para uma casa, como copos, pratos, talheres, talvez um sofá e um colchão. A certeza que sentíamos (em meio às dúvidas) não veio somente com o sentimento de confiança em Jesus. Esse sentimento era confirmado, reforçado, e alimentado, pelas diversas demonstrações de que este era o caminho, desde uma palavra de ânimo, até o apoio real de amigos que fizemos naquele curto período, seja fazendo o transporte de nossos poucos bens, seja doando algo.
Para quem não tinha reserva alguma e com um orçamento apertado, conseguimos montar um apartamento completo. Compramos alguns itens, como TV e DVD Player (fundamental para a época rsrsrs) em lojas de produtos usados, como o Salvation Army e em Garage Sales. Além disso, compramos também a mesa, as quatro cadeiras, a cama e o sofá da própria ex-inquilina que sublocou o apartamento para a gente. Tudo novo, com menos de um ano de uso, por CAD$ 650,00. Além de tudo isso, teve algo que ainda foi capaz de nos surpreender ainda mais: a própria inquilina nos doou alguns itens extras. E tão relevante, ou mais, do que os itens doados, foi o recado deixado por ela em cima da mesa. Deus nos surpreendeu com ventilador, microondas e até cafeteira!
"Bem vindo! Olá Bruno, deixei alguns itens extras que eu penso que podem ser úteis para você (ventilador, microondas, etc). Penso que você irá gostar de tê-los. Deus abençoe."
Nos sentimos bastante abençoados em termos um cantinho somente para nós. E mais abençoados ainda como tudo ocorreu. E só ocorreu porque Deus nos abençoou com graça, nos dando fé, nos fazendo agir, e, também, através da ação de pessoas que se dispuseram a nos receber, nos servir e nos dar o que elas têm de mais precioso: seu tempo. Nesse contexto se insere a família linda e muito querida que nos ajudou no carregamento e transporte de toda a mudança.
À época não entendíamos, mas ao longo dos dias e meses ali, passamos a compreender porque tudo ocorreu daquela maneira. E até aqui seguimos, ainda, compreendendo. Essa história, obviamente, não finaliza aqui. São só os dois primeiros meses de um ano e seis meses vividos intensamente em família. Passamos um ano e meio no Canadá e posso dizer sem sombra de dúvidas que vivemos a maior, e melhor, experiência que nossa família poderia viver até então. Muito crescimento pessoal e profissional, muitas pequenas e grandes conquistas. Desde o desfralde completo de uma bebê de dois anos, até poder pedir escolher mais do que um bife ou frango numa língua diferente da minha. Desde a conquista de ter artigos publicados em conferências importantes até a conquista de encontrar o mais importante do que isso: uma igreja. Desde a brincadeira em um parque ao ar livre de minha pequena paraibana com uma paquistanesa ou um indiano de mesma idade, até a troca de experiências multiculturais em um laboratório com 7 ou 8 pessoas de nacionalidades diferentes. Desde a escassez de não ter comida na geladeira e ter que ir a um centro comunitário para pedir cesta básica, até a fartura de ser convidado à casa de amigos e irmãos na fé para compartilhar o pão. Coisas que hoje vemos como simplicidade, mas, para nós, à época, era visto como milagre!
Definitivamente, aquela experiência firmou nossa fé, moldou nosso caráter, nos trouxe ensinamentos valiosos e hoje, podemos dizer que somos o que somos enquanto família, graças àquele período intenso que tivemos juntos, só nós três. E embora hoje sejamos quatro, a nossa pequenininha, a caçulinha, ainda colhe frutos daquela experiência, que é atemporal.
Bruno Moreno
07/05/2022
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