segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Do outro lado


Estou do outro lado da parede: eduquei minhas meninas sempre dizendo isso. Que enquanto elas dormiam, ou tentavam dormir, não precisavam ter medo: eu estaria do outro lado da parede, ou no quarto dormindo ou no escritório trabalhando. Mas eu estaria lá. Talvez todo pai já tenha dito isso aos seus filhotes. E talvez todo filhote não fique satisfeito com a resposta como minhas filhas ficam.

A vida é feita de ciclos. E ontem, no leito de um hospital, com muito medo da solidão, chorando com inocência semelhante a de minhas filhas, temendo abandono ou qualquer coisa que o valha, vi a avó de minhas filhas, minha mãe, pedindo-me exatamente o que elas me pedem ao dormir: para não deixá-la só. 

Minha mãe: a mulher que aos 18 anos casou-se, que naquela mesma idade passou em concurso concorrido, que morou longe de casa e enfrentava 500km toda semana para trabalhar, que criou três filhos sozinha, que enfrentou inúmeras e incontáveis lutas, que venceu tantas batalhas, obviamente, ao choro semelhante ao de minhas filhas, não aceitou que eu ficasse do outro lado da parede.

Bruno Moreno

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

O dia em que minha mãe me pariu de novo.

 O dia em que minha mãe me pariu de novo.


Em pleno dia de aniversário de 67 anos da minha mãe, ela me pariu de novo. Sim, foi naquele 04 de agosto, que ao longo dos meus trinta e sete anos venho comemorando o aniversário de minha “veinha”, me senti nascendo novamente. E a causa disso foi o diagnóstico de um tumor cerebral, dito agressivo, na aniversariante.

Naquele dia fui surpreendido por uma notícia devastadora e, no turbilhão de emoções, e a cada nova notícia, lágrimas escorriam de um poço sem fim que parecia ficar cheio a cada nova informação sobre o tumor, a cada lapso de memória de minha mãe, a cada sentimento de culpa gerado, sem contar a tsunami de medo, expectativas e desconhecido.

Mas do choro acompanhado de conversas sinceras com o meu Deus, um renascimento surgiu. Minha mãe acabou me parindo de novo. Tem sido um renovo milagroso, fé e convicções renovadas. 

É que em meio ao mistério das circunstâncias em que fomos colocados por Deus, me vi com uma fé renovada e alicerçada no que diz o capítulo 8 do livro bíblico de Romanos. É difícil separar as partes que mais têm falado comigo durante esses longos quatro ou cinco dias e, por isso, incentivo você a ler o referido capítulo ao final desse texto e refletir comigo, levando em consideração toda a situação em que estamos vivenciando.

Um breve resumo em minhas palavras poderia ser assim: se Deus é por nós, um tumor pode ser contra nós? (pergunta retórica!) Afinal, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus! Um tumor - ou melhor - um glioblastoma (seja ele grau I, II, III ou IV) pode nos separar do amor de Deus?  (pergunta retórica!) É um sofrimento muito grande? Enorme! Mas ele não pode ser comparado com a glória que há de vir! E quando eu apenas “uivo” em meu choro diante do Senhor, como aquele meu choro é compreendido pelo meu Deus? Ele é feito através de “gemidos inexprimíveis” pelo Espírito Santo, e isso é feito de acordo com a vontade de Deus. Deus sabe como eu oro até quando eu não consigo orar e simplesmente só faço gemer (como tenho feito constantemente).

Em todas as coisas eu sou mais que vencedor!

Isso tem me ensinado que a ciência pode até definir a velocidade com que as células malignas no cérebro de minha mãe se multiplicam, mas independentemente disso, tanto a ciência como a doença se submetem à vontade do Senhor! Acima de qualquer conhecimento, mistério ou dilema, a verdade absoluta é a de que Deus me ama e cuida de mim e de minha família com amor indizível. Ele é soberano e a sua verdade é boa, perfeita e agradável.

Ler até aqui sem a profunda certeza da salvação em Cristo Jesus deve ter feito você menear a cabeça ou pensar que essa fé é o anestésico para tamanho sofrimento que eu e minha família vimos sofrendo. Quanto a isso, eu respondo o que o mesmo capítulo de Romanos me ensina: que através desse sofrimento, e dessa convicção de fé, eu sei que sou filho de Deus. E isso me conforta e me traz ainda mais esperança: se sou filho, é o que diz o texto, sou co-herdeiro com Cristo, tanto nesse sofrimento como na glória (que é futura, eterna).

Aprofundar-se nas verdades desse texto em meio a dor faz toda diferença nesse momento tão doloroso. Não pense, com isso, que tem sido bom saber que minha mãe tem um tumor no cérebro que pode levá-la repentinamente (e precocemente), ou deixá-la deficiente. Não pense que tem sido fácil. Tenho chorado diariamente e acordo-me todos os dias sentindo-me muito mal e angustiado. Mas preciso dizer também que tenho sido consolado pelo Senhor. Tenho sofrido muito. Mas preciso dizer que sinto um milagre dentro de mim que só pode ser explicado pelas orações daqueles que dizem estar orando por nós. Isso não implica dizer que não temos sofrido. Angustia-me, por exemplo, pensar na possibilidade de não acompanhar minha primogênita aprendendo as artes manuais com sua avó paterna que sempre gostou de lhe ensinar. Do mesmo modo, em supor que minha caçula pode não mais brincar de jogo da memória ou de Uno com ela. Não quero nem imaginar como será se estivermos perto o dia em que na hora do almoço não irei mais escutar a minha esposa dizer algo como: “Será que sua mãe não quer almoçar conosco hoje”?

Não tem sido fácil. Mas a verdade bíblica tem me ensinado a ir além: o milagre já foi feito! Eu renasci, meu irmão! E não pense que esse seja um discurso de um derrotado que não crê na cura. Eu nunca cri tanto! Essa tem sido minha oração diária e constante! Oro para que os médicos “abram a cabeça de minha mãe” e tenham a “mente aberta” para o milagre realizado sem que suas mãos tenham entrado em intervenção. Minha oração tem sido por cura porque eu sei que essa cura vem independente de intervenção humana ou da ciência. Ela depende unicamente da vontade de Deus. Sei que vem de Deus tanto o querer como o realizar e que não há nada sobre o qual a Sua poderosa mão não seja capaz de fazer. Tenho orado por isso e sei que a oração do justo pode muito em seus efeitos. Mas o maior milagre Deus já fez em mim: eu estava morto e quem foi curado foi eu.

Ore por nós, ore por minha mãe. A cirurgia é hoje, às 18h. Deus está no controle.

Bruno Moreno, filho de Dona Tereza!

João Pessoa, 08 de agosto de 2022


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Romanos, capítulo 8

Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte. Porque, aquilo que a lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na carne, a fim de que as justas exigências da lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem, de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz; a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus.

Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês.

Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: "Aba, Pai". O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória.

Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.
A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo? Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente.

Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.

Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.

Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?
Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro". 

Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar.