segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Do outro lado


Estou do outro lado da parede: eduquei minhas meninas sempre dizendo isso. Que enquanto elas dormiam, ou tentavam dormir, não precisavam ter medo: eu estaria do outro lado da parede, ou no quarto dormindo ou no escritório trabalhando. Mas eu estaria lá. Talvez todo pai já tenha dito isso aos seus filhotes. E talvez todo filhote não fique satisfeito com a resposta como minhas filhas ficam.

A vida é feita de ciclos. E ontem, no leito de um hospital, com muito medo da solidão, chorando com inocência semelhante a de minhas filhas, temendo abandono ou qualquer coisa que o valha, vi a avó de minhas filhas, minha mãe, pedindo-me exatamente o que elas me pedem ao dormir: para não deixá-la só. 

Minha mãe: a mulher que aos 18 anos casou-se, que naquela mesma idade passou em concurso concorrido, que morou longe de casa e enfrentava 500km toda semana para trabalhar, que criou três filhos sozinha, que enfrentou inúmeras e incontáveis lutas, que venceu tantas batalhas, obviamente, ao choro semelhante ao de minhas filhas, não aceitou que eu ficasse do outro lado da parede.

Bruno Moreno

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