terça-feira, 8 de novembro de 2022

O choro de Jesus

 


O episódio da ressurreição de Lázaro tem sido frequentemente trazido à minha memória por diversas razões diante do sofrimento que eu e minha família temos passado desde que minha mãe foi diagnosticada com um câncer cerebral. Mas hoje, ao ver minha mãe chorar como tem ocorrido com certa frequência, e enquanto tentava consolá-la com a palavra de Lázaro, senti-me consolado. Não por causa da ressurreição, desta vez, mas por um simples fato que eu nunca havia dado a devida importância naquela história: Jesus chorou. O versículo mais curto da Bíblia quase passou despercebido para mim ao longo de toda minha caminhada na fé. Ele chorou mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro. O Criador e Salvador, aquele que é a própria ressurreição, chora por causa da morte de um amigo.

Eu imagino a cena e é inevitável não me colocar no lugar de Marta e Maria e não sentir alguns dos sentimentos que provavelmente elas sentiram. Veja só, elas devem ter se perguntado o que poderiam ter feito para evitar aquela tragédia. Quais cuidados poderiam ter tido para com a enfermidade do irmão? Que médicos poderiam ter contratado? Quais tratamentos poderiam ter tentado? Quais angústias o próprio Lázaro teria relatado para elas e elas, possivelmente, teriam ignorado ou pormenorizado?

Imagino, também, o sentimento de abandono: o Jesus que se dizia Deus, aquele pelo qual elas tinham “perdido” tanto tempo, sequer apareceu quando foi chamado. E quando apareceu, chegou tarde demais. Lázaro morreu e o milagre de sua cura não ocorrera. Foi só na morte que Jesus foi em direção a Lázaro. Jesus esperou que Lázaro morresse para reencontrá-lo. E no túmulo! Quando recebido pelas irmãs de Lázaro, ambas fizeram a mesma indagação: “Senhor, se estiveras aqui, não teria morrido meu irmão” (João 11:21,32).

Aquela Marta a qual normalmente alegamos ser “menos espiritual” do que a irmã por causa dos afazeres domésticos, é quem emenda a frase dizendo “Mas também sei que, mesmo agora [mesmo diante da morte], tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá.” (João 11:22). Após essa declaração de fé, Jesus declara o que iria ocorrer: “Teu irmão há de ressurgir” (v. 23). 

Já Maria, aparentemente sem fé naquele momento, simplesmente chora. E é após o choro de Maria que Jesus sente seu espírito agitado, fica comovido e chora também. Jesus chora com Maria. É como se estivesse sendo antecipado o que seria dito mais tarde por Paulo, aos Romanos: que o Espírito Santo, o mesmo que habita em Jesus, traduziu os gemidos inexprimíveis de Maria. E Jesus entendeu. E chorou. E vendo-o chorar, Maria deve ter se sentido consolada. E com Maria, eu sinto esse consolo.

Bruno Moreno
07/11/2022

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