domingo, 11 de outubro de 2020

Redes Sociais e a Saúde Mental

Acredito ser urgente a discussão sobre o papel das redes sociais no adoecimento mental das pessoas, especialmente nos mais jovens. Na computação, há vários estudos que associam o uso indevido de redes sociais com sentimentos negativos. Isto porque em nossa área, é possível definir algoritmos que são capazes de analisar o que as pessoas publicam, curtem ou compartilham e a partir daí avaliar seus sentimentos. Na área da psicologia, do mesmo modo, há estudos que relacionam o uso excessivo das redes sociais a sintomas depressivos.


Foi nesse sentido que em 2017, a Royal Society for Public Health, do Reino Unido [1], publicou um relatório composto por vários estudos  relacionados ao uso das mídias sociais. Em resumo, o relatório conclui que o Instagram pode ser considerada a rede social mais prejudicial à saúde mental dos jovens. E isso ocorre, de acordo com os vários estudiosos, porque as pessoas deste público, ao fazerem uso excessivo daquela rede, se sentem ansiosas, deprimidas, com a autoestima baixa e normalmente sem sono (você se identificou?). Vale a pena ler a matéria que a Super Interessante publicou sobre este relatório.



O relatório mostra também uma realidade ainda mais cruel para as mulheres, especialmente as mais jovens. Garotas e mulheres que fazem um uso mais frequente dessas redes demonstram ter uma maior preocupação com a imagem corporal e, consequentemente, uma maior insatisfação com a própria imagem. A busca pelo "corpo perfeito" é descaradamente incentivada por essas redes sociais.


No que diz respeito às crianças, o estudos do referido relatório demonstram o óbvio (e que muitos de nós, pais, insistimos em ignorar): o uso de redes sociais por crianças aumenta a ansiedade e, consequentemente, aumenta de forma assustadora a probabilidade dessas crianças terem depressão severa no futuro. Veja o que expressa o relatório especificamente nesta seção:


"O uso das redes sociais por mais do que duas horas por dia está associado com má avaliação sobre a própria saúde mental, níveis aumentados de sofrimento psicológico e tendência suicida"


E aí, você vai continuar deixando seu filho/filha usar as redes sociais livremente e de forma excessiva? 


Há estudos, ainda, que mencionam que os adolescentes e jovens da geração atual têm tido um amadurecimento tardio em razão do uso excessivo das redes sociais [2]. Ou seja, nossos jovens e adolescentes apresentam padrões de comportamento que não condizem com suas faixas etárias. Segundo este estudo, os jovens de 18 anos da geração atual, por exemplo, têm se comportado como os adolescentes de 15 anos da geração que não usava redes sociais. Mais do que isso: a infância agora se estende até o ensino médio. E um dos culpados, sim, é o mau uso das mídias sociais em geral. 


Um dos culpados pelo agravante na ansiedade gerada por esses aplicativos é a presença do "feed de notícias". Burke e Kraut [3] identificaram que a rolagem (infinita) do feed pode gerar maior ansiedade nos usuários. Isto porque o usuário que está olhando o feed não está interagindo com ninguém, como seria em um mensageiro qualquer como o Whatsapp ou Telegram, por exemplo. Isso serve de alerta e de auto-avaliação: como você se comporta diante do feed?


Mas não é a ausência do feed de notícias que inibe os usuários de terem problemas de ansiedade. O segredo está no autocontrole. Usuários do Whatsapp e Telegram, que não tem o feed, não estão excluídos dos problemas de ansiedade. Se utilizados de forma não moderada, e se utilizados sem se compreender suas funcionalidades básicas, estes aplicativos também podem gerar desconfortos relacionados à saúde mental. Church e de Oliveira [4], por exemplo, observaram que o recurso de "Confirmação de Leitura" do Whatsapp gera bastante expectativa nas pessoas. Eles alertam para o óbvio: uma mensagem aberta não indica necessariamente que o receptor da mesma a leu. Esta simples incompreensão de muitos usuários é motivo de bastante stress no uso do aplicativo. Quem nunca disse ou ouviu o argumento de que: "você leu minha mensagem no whatsapp mas não respondeu!!!"?


Confirmando este resultado, Blabst, Nicole e Diefenbach [5] notaram que os usuários que desativam o recurso de "Confirmação de Leitura" e o recurso "Visto por último" têm menos stress ao utilizar a ferramenta. Ou seja, desativá-los não significa somente uma questão de privacidade, mas também de cuidado com a própria saúde mental e/ou das pessoas com as quais você se relaciona.


Apesar disso tudo, os pesquisadores desses estudos concordam que aplicativos de redes sociais podem contribuir de forma positiva se usados de forma consciente. Os pontos positivos incluem desde o suporte emocional que pode ser encontrado nesses espaços, o estreitamento de laços sociais com amigos próximos e familiares, o auxílio que esse estreitamento oferece às pessoas com sintomas de solidão e depressão, além da sensação de pertencimento à uma comunidade. Além disso, um desses estudos também cita que o apropriamento de informações sobre condições de saúde é um ponto bastante positivo das redes sociais (claro, isso também pode trazer muitos danos à saúde pública, a depender dos "doutores de Youtube" que você segue). 


Por fim, é importante pontuar que em boa parte desses estudos é ressaltado que os efeitos negativos foram identificados de forma mais evidente exatamente naqueles usuários que utilizam essas ferramentas excessivamente. É por isso que considero bastante importante que estejamos atentos ao tempo que gastamos utilizando às ferramentas online. Faço frequentemente um exercício pessoal comparando o tempo que gasto com as redes e com outras atividades que considero importante na teoria, mas que não demonstro isso na prática. Por exemplo: se considero a leitura uma importante atividade para meu desenvolvimento pessoal, por quê gasto 10 minutos lendo diariamente, mas utilizo o Instagram durante 2 horas por dia? Redefina seu uso, cuide de sua saúde mental e reorganize suas prioridades. Esse exercício é diário e deve ser intencional.


Bruno Moreno

09 de outubro de 2020


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[1] Royal Society for Public Health, 2017 #StatusOfMind. Disponível em: https://www.rsph.org.uk/our-work/campaigns/status-of-mind.html

[2] 1. Wingo JL. Book review: iGen: Why today’s super-connected kids are growing up less rebellious, more tolerant, less happy—and completely unprepared for adulthood (and what that means for the rest of us). Christian Education Journal. 2019;16(1):150-154.

[3] Moira Burke, Robert E. Kraut, The Relationship Between Facebook Use and Well-Being Depends on Communication Type and Tie Strength, Journal of Computer-Mediated Communication, Volume 21, Issue 4, 1 July 2016, Pages 265–281, https://doi.org/10.1111/jcc4.12162

[4] Church, K., & de Oliveira, R. (2013) What's up with whatsapp?: comparing mobile instant messaging behaviors with traditional SMS. 15th international conference on Human-computer interaction with mobile devices and services, Munich, August 30th, 2013, (pp. 352-361). ACM, Munich.

[5] Blabst, Nicole and S. Diefenbach. “WhatsApp and Wellbeing: A study on WhatsApp usage, communication quality and stress.” BCS HCI (2017).


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Estamos livres!

Acordamos em um país livre. E me agradeçam também por isso, talkei? 

Essa era a verdade que liberta, que vocês tanto ignoraram. Em apenas dois anos o Brasil está livre da corrupção! 

Para que um COAF que impede lavagem de dinheiro? Estamos livres!

Para que um Ministério Público independente? Estamos livres! 

Para que uma Polícia Federal forte? Estamos livres!

Para que, afinal, uma Lava-Jato? ESTAMOS LIVRES, MÊU!!! ESTAMOS LIVRES!!!

Vejam que evolução: universidades deixaram de ensinar ideologia.

A de gênero? Tá repreendido!!!

A ciência se rendeu à gripezinha (aliás, currículo acadêmico agora é só CTRL+C, CTRL+V).

As igrejas receberam ofertas volumosas. O que nos ajuda ainda mais a doutrinar sem a necessidade das patéticas escolas bíblicas dominicais! 

Quantos homens e mulheres de Deus estão no governo? Resposta de oração!

Temos pastores ministros de Estado. Quem diria!? Brevemente, oxalá, ou melhor, se deux permitir, um sacerdote terrivelmente cristão fará parte do STF! 

É por isso, meus irmãos e irmãs, que o Renan, o Gilmar e o Toffoli se converteram!

E eu tenho fé que não teremos apenas orações antes de cada sessão. Iremos além: colocaremos a declaração dos cinco solas na parede da esquerda, um quadro de um shofar na da direita e, claro, trocaremos a Cruz que fica atrás do comunista e incrédulo do Fux, que pensa que não somos mais livres, pela imagem do Messias que, sim, sangrou por nós e operou o grande milagre: estamos livres!

Bruno Moreno
08 de outubro de 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Abismo de comunicação nas redes

 

A depender da forma como a comunicação ocorre, o uso das redes sociais pode impactar as nossas vidas de maneira positiva ou negativa. Os bons resultados são variados: as ferramentas online aproximam pessoas, permitem o compartilhamento de assuntos em comum, melhoram a prestação de serviços nas mais distintas áreas e possibilitam que toda pessoa com um smartphone em mãos tenha poder de voz sobre diversos assuntos. No entanto, as redes também têm sido a causa de alguns problemas, sejam eles de relacionamento pessoal, de saúde mental dos seus usuários, além de questões relacionadas à privacidade e ao desenvolvimento pessoal. Quem me conhece sabe que gosto bastante de me comunicar e expor minhas opiniões sobre assuntos que são do meu interesse. Decidi, em parte por esta razão, estudar de verdade o tema a partir de 2011, em minha tese de doutorado, quando defini um modelo de análise de comportamento de usuários de redes sociais baseadas em localização. Ultimamente, tenho refletido bastante sobre algumas questões relacionadas ao uso das redes sociais e tenho tentado aplicar o resultado dessas reflexões no meu dia a dia. Este é, portanto, o primeiro artigo de uma série em que discuto alguns aspectos dessas reflexões. Então, como dizem no Twitter, segue o fio! :)


Neste primeiro artigo eu gostaria de abordar o abismo que as redes sociais têm criado em nossa comunicação diária. Isso é especialmente interessante - e triste - já que essas ferramentas deveriam aproximar as pessoas. O primeiro aspecto que precisamos considerar diz respeito ao comportamento que seria adequado, ou aceitável, nesses espaços digitais.


Assim como os espaços físicos que frequentamos, os espaços digitais possuem regras, sejam elas explícitas ou não. Saber se comportar nesses espaços é de suma importância para que sejamos "ouvidos", compreendidos. Para isso, minha primeira sugestão é ficar atento ao que se chama Mito de Mehrabian, ou Regra 7-38-55 [1][2]. Em minha opinião, se todos estivéssemos atentos ao que diz esta regra, teríamos evitado parte de nossos conflitos em ferramentas de redes sociais.



O Mito de Mehrabian diz, basicamente, que a comunicação acontece de forma eficiente por três meios concorrentes: visual, sonoro e, claro, através do próprio conteúdo da mensagem. De acordo com Mehrabian, a coerência de uma comunicação efetiva depende 55% da linguagem corporal/facial, 38% do tom de voz e 7% das palavras proferidas. Apesar de existirem algumas controvérsias relacionadas ao referido estudo, penso que ele demonstra uma das causas de muitos dos nossos conflitos em redes sociais. Aquele debate sobre a pandemia, por exemplo, ou sobre qualquer outro tema polêmico em um grupo da família, pode ter gerado conflito exatamente porque os emissores e receptores das mensagens não puderam observar as expressões faciais uns dos outros enquanto discutiam.


A lição que o Mito de Mehrabian tem me ensinado é a de que sempre que estiver tratando sobre temas que possivelmente podem afetar os sentimentos das pessoas - e, claro, se minha opinião é realmente relevante - é melhor que eu envie um áudio pois, assim, estarei garantindo que os receptores interpretem sem maiores problemas pelo menos 45% da mensagem (7% do conteúdo do discurso + 38% relativos ao tom de voz). 




Pode ser que estando atentos à regra 7-38-55 ainda consigamos diminuir esse abismo. Mas essa tentativa de nada valerá se no mundo físico continuarmos fazendo parte da legião de imbecis do mundo virtual. Por "legião de imbecis" não entenda na mesma perspectiva em que Umberto Eco teria usado o termo (embora valha a pena ler a respeito). O ponto é que temos preferido o contato virtual ao físico e, sim, isso é de uma imbecilidade sem tamanho. Não é incomum estarmos em uma mesa de restaurante com amigos ou reunidos com familiares e, ao mesmo tempo, estarmos dando mais valor ao que se encontra nas redes do que ao que acontece "no mundo real". Estamos frequentemente "onlines" em nossas redes sociais virtuais, mas "offlines" em nossas redes sociais físicas. E é por isso que, por vezes, esse abismo só tende a aumentar. Não é contraditório que ferramentas que deveriam melhorar nossa comunicação e nossos relacionamentos estejam nos trazendo danos?


Lembro-me de uma cena em que vivi no ensino médio, em meados dos anos 2000, em que um professor de literatura teria "surtado" ao ver um celular de uma aluna carregando em sala de aula. Veja bem, naquela época ninguém via necessidade, sequer, de levar um celular para a escola, até porque pouquíssimas pessoas tinham um celular. Carregar um aparelho de celular em plena sala de aula, então, nem se fala. Além de telefones nas coordenações, toda escola tinha um ou mais "orelhões" que permitiam que seus alunos entrassem em contato com quem quisessem.



Hoje, como professor, não vejo somente celulares carregando em sala de aula, como também alunos utilizando seus aparelhos para os mais variados fins não somente dentro da sala, mas enquanto a aula ocorre. Eu mesmo, como professor, não interrompi minhas aulas somente para solicitar que alunos parem de fazer uso desses aparelhos, mas também já as interrompi para atender ligações. Aliás, fiz mais do que isso, já dei espiadas rápidas no whatsapp para ver se encontraria algo mais interessante do que a minha própria aula. E assim como nas rodas de amigos e nos encontros familiares, se perguntado sobre o uso inconveniente do aparelho em momento inapropriado, as respostas que dou possivelmente são semelhantes às mesmas que talvez você dê e às que escuto: "desculpa, é que é algo urgente". E, talvez, seja por causa de nossas urgências não importantes que, no futuro, precisaremos encontrar desculpas melhores para problemas realmente importantes de relacionamento.


Bruno Moreno

02 de outubro de 2020


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[1] Mehrabian, A., & Wiener, M. (1967). Decoding of inconsistent communications. Journal of Personality and Social Psychology, 6(1), 109–114. https://doi.org/10.1037/h0024532

[2] Mehrabian, A., & Ferris, S. R. (1967). Inference of attitudes from nonverbal communication in two channels. Journal of Consulting Psychology, 31(3), 248–252. https://doi.org/10.1037/h0024648


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Um coração pra quem sempre amei


Foi em viagem da escola
Com muita recomendação
"Ô menino, não larga a tia
E sem bagunça nesse busão!"
Lugar quente da gota serena!
Mas foi com muita diversão
Mal sabia aquela gente pequena
Seria o reduto da minha formação

Na memória nem sempre confio
Num sei se zoológico ou se museu
Mas no shopping eu desafio
Que o melhor me assucedeu

Meu Jesus sabendo tudo
Desconfiou de minha lembrança
E transformou ela em matéria
Pra poetizar a minha infância

Não foi a bagunça entre amigos
Nem conversas fáceis de esquecer
Não foi a lanchonete dos gringos
Nem as meninas que'eu quis me perder

Foi um souvenir, na verdade
Era assim que vovó dava o nome
Nem seu gerovital a vontade
Traria essa lembrança ao homem

Uma arara foi suficiente
Afinal era tudo que eu tinha
Em matéria transformou minha mente
Um presente pra minha mainha

E cheguei aos amigos, orgulhoso
Fui perguntado por que me atrasei
E eu disse bastante vaidoso
Um coração pra quem sempre amei

Bruno Moreno, 26 de junho de 2020.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Qualidade X Quantidade

Ao final de 2019 decidimos, com Malu, que uma de suas metas para o ano seguinte seria ler o evangelho de Mateus. Começamos 2020 tentando, semanalmente, ler um capítulo por domingo. A leitura passou a ser bastante difícil e cansativa por diversas razões. Maria Luíza, como toda criança de 9 anos, fazia repetidas e incansáveis perguntas. Algumas bastante óbvias, mas, por vezes, também extremamente difíceis de serem respondidas de imediato.

Com as dificuldades, acabávamos não sendo frequentes na leitura semanal e isso passou tanto a me incomodar como a incomodá-la também. Por vezes fui cobrado, aos domingos, com um "Pai, e a nossa leitura juntinhos!?".

Foi no início da pandemia, então, que me planejei não somente em continuar com essa prática, mas em finalizar o livro ainda na quarentena. Pensei: "ora, se Mateus tem 28 capítulos e nós ja lemos 8, em menos de um mês conseguiremos ler todo o livro". Passei, portanto, a tentar fazer com que as leituras de cada capítulo fossem diárias e não mais semanais. Obviamente deu errado, afinal, quantidade não é qualidade.

As perguntas de Malu passaram a ser mais difíceis e me fizeram, Inclusive, observar detalhes no texto que eu nunca havia me perguntado ou a extrair reflexões que eu jamais havia feito. Foi aí que notei três coisas: primeiro, eu precisava elaborar um plano bíblico específico para ela, para a idade dela, para o nível de compreensão dela; segundo, eu tinha que ESTUDAR a porção bíblica do dia antes mesmo de ler com ela para, assim, TENTAR trazer respostas para suas perguntas bereianas; por fim, aquele tempo juntos precisava ser um tempo de meditação na Palavra, e não somente de estudo bíblico, eu precisava ensinar a minha filha a importância de uma leitura devocional diária. 

E foi assim que decidi mudar a estratégia. Se continuassemos como estávamos, Malu tanto não se apaixonaria pela Palavra como, também, acabaria tendo sérios traumas do tempinho junto com o seu pai (faltou-me domínio próprio por vezes rsrsrs). 

Foi assim que elaborei um plano com curtas porções DIÁRIAS baseado nas divisões de seções da Bíblia de Genebra (algumas porções, por exemplo, têm apenas 3 ou 4 versículos). Assim, o processo de ensino e aprendizagem da Palavra passou a ser bastante proveitoso. Foi incrível a diferença. Não somente eu passei a ensinar melhor como ela passou a aprender de forma mais leve e a se interessar ainda mais pelo que lia. Mais do que isso: as pequenas porções nos permitiu refletir, meditar, sobre o texto de forma bastante enriquecedora e a trazer valiosas lições para nossa vida prática. E isso diariamente.

Meus irmãos, como isso tem me fortalecido! Pela graça de Deus, e somente pela graça, posso dizer que em meio ao caos tenho tido tempo de conforto, consolo, conhecimento do Eterno e aprendizado teológico de alto nível com minha teóloga mirim (só quem é pai e/ou professor sabe que é ensinando que se aprende mais). Esse tempo não exclui a necessidadede um devocional pessoal, somente entre eu e Deus, mas o que posso dizer é que tem valido a pena pensar menos em quantidade e mais em qualidade nas leituras bíblicas. Digo isto porque é bastante comum que sejamos tão influenciados pelos valores deste mundo que até nossa vida espiritual e de estudo bíblico passa a ser direcionada pelos padrões de produtividade de um mundo pecaminoso. Precisamos reorientar nosso coração.

O maná apodrecia quando em quantidade excedida, os milagres dos pães e peixes foram realizados com a pouca quantidade. A qualidade das pequenas porções diárias PODEM ser extremamente significativas para nos dar um alimento espiritual sólido. Tudo depende de onde está, exatamente, nosso coração.

Bruno Moreno

domingo, 26 de abril de 2020

Seis fatos para você não continuar defendendo Bolsonaro depois da saída de Moro

A saída de Sérgio Moro do governo Bolsonaro demonstrou não somente a crise insustentável que paira sobre Brasília, mas também que assim como a imprensa tenta nos enganar com suas fakenews, esse pessoal que está no poder faz o mesmo. Por exemplo, enquanto Carla Zambelli, deputada bolsonarista, implorava para que Moro permanecesse no governo, a mesma tuitava que a mídia estaria "pregando uma peça" ao país e culpando a mesma mídia pela queda nas bolsas.




Foi desnudada, então, através da coletiva do então ministro, a hipocrisia de um governo que foi eleito não somente com um discurso anti-corrupção, mas especialmente fazendo mal uso de uma (suposta) moral cristã. Além disso, claro, a coletiva evidenciou mais uma vez como o petismo e o bolsonarismo são faces da mesma moeda.




Adianto, aos precipitados, esse texto não é uma defesa a Moro. Penso, inclusive, que o nosso mal é sempre querer depositar em uma figura política a redenção do país. Moro não pode ser o novo Lula nem o novo Bolsonaro, ou Baalsonaro, como queiram. O que passo a lembrá-los, e que gostaria que refletissem, são fatos que vêm ocorrendo ao longo do governo que demonstram que, ao contrário do que o mesmo se propunha, ele não somente é um governo imoral, como é, também, corrupto.




Vamos aos fatos. Primeiro, Bolsonaro quis mudar o diretor geral e superintendentes da Polícia Federal com único e real objetivo de beneficiar a si próprio e os seus. Muitas são as razões para isso, razões essas que vêm não somente se confirmando com o passar do tempo, mas foram ainda reforçadas com a coletiva do ex-ministro. Essas razões, inclusive, se misturam aos fatos. 


Segundo, Bolsonaro está evidentemente preocupado com as denúncias contra Carluxo, seu filho 02. A preocupação diz respeito tanto ao assassinato de Marielle quanto ao suposto gabinete do ódio. Quanto a Marielle, é inevitável lembrar do discurso do presidente logo após a coletiva de Moro e seu comentário digno de um presidente conservador sobre seu filho 04, o Renan, aquele que acabou se envolvendo em tudo isso por ter sido o "comedor" do condomínio.




Por falar em discurso do presidente, vamos ser sinceros, o que foi aquilo? Me parecia mais uma aglomeração de imbecis tentando dar credibilidade a uma fala infantil, tola e voltada, tão somente, para uma turma de alienados que (ainda) lhe resta. Assistir um discurso daquele, perdido, desconexo e pueril, me trouxe a mesma sensação que tinha quando ouvia a ex-presidente Dilma: "Eu ajudei, com meu voto, a colocar essa anta acéfala no poder". 




O gabinete do ódio, por sua vez, tem sido objeto de fala de vários ex-aliados de Bolsonaro, especialmente aqueles que foram vítimas das difamações partidas do "setor" chefiado pelo filho 02. Além de calúnia, difamação e injúria serem crime em nosso código penal, quando elas partem de servidores públicos, utilizando-se recursos públicos, o problema aumenta e passa a ser corrupção.




Uma explicação breve sobre o tal gabinete do ódio: é relativamente simples criar (e identificar) robôs nas redes sociais, especialmente Twitter. Se você não sabe pra que serve o tal robô e continua achando isso irrelevante em todo esse contexto, compreenda o seguinte: eles impulsionam assuntos específicos, ajudam a construir narrativas (e destruir), ajudam a influenciar pessoas e funcionam de forma semelhante aos anúncios de produtos que vemos em nossas redes sociais. Na teoria das redes, chamamos esse efeito, inclusive, de Efeito Mateus, em referência ao capítulo 25, versículo 29, do evangelho bíblico. Isto, porque, em linhas gerais, quanto maior a visualização de um assunto, um tópico ou uma pessoa, mais visualização o assunto, o tópico ou a pessoa terá.




Terceiro fato, Bolsonaro está preocupado, sim, com o curso das investigações sobre as últimas manifestações que o mesmo participou. O que seria uma simples homenagem ao exército se tornou, com apoio claro do presidente, uma alusão à ditadura e, especialmente, ao AI-5. Engana-se (ou, talvez, mente) quem diz que Bolsonaro e pessoas do governo não incentivaram os atos. O incentivo não somente aconteceu antes dos mesmos, como há fotos e provas que houve omissão e silêncio durante o evento. Omissão e silêncio sobre um ato institucional antidemocrático proveniente, justamente, do representante máximo de um estado democrático.




Em quarto lugar, como se não bastasse, até aqui, o envolvimento de dois de seus filhos com tudo isso. Bolsonaro está preocupado, ainda, com as investigações relacionadas ao seu filho Flávio Bolsonaro e essa é a razão de tanto ele querer substituir o superintendente da PF do RJ: proteger, mais uma vez, o Flavinho. E claro, dentre as várias tentativas anteriores está o acordo de Bolsonaro com Toffoli, que indicou o nome do atual Advogado (ou Pastor) Geral da União.


Quinto, Bolsonaro JÁ nomeou o novo Diretor Geral da Polícia Federal e o fez, exatamente, sob a tutela de um de seus filhos investigados. Isso mesmo, o Alexandre Ramagem, atual DG da PF, é amigo de Carlos Bolsonaro. 




Além de proteger interesses pessoais (não republicanos), a troca de chefes da PF demonstra uma clara interferência política conforme dito pelo próprio Moro e confirmado por Baalsonaro (ops, Bolsonaro) em seu insano pronunciamento. Bolsonaro não é contra o sistema, Bolsonaro faz parte dele. A escolha de um Diretor Geral da PF que esteja submisso ao presidente é tão grave quanto o presidente escolher um PGR que também esteja submisso ao mesmo. E Bolsonaro fez, exatamente, as duas coisas.



Por fim, Bolsonaro é esquema. Bolsonaro é sistema. Bolsonaro é centrão. Bolsonaro é Maia. Bolsonaro escolheu Maia para presidência da câmara e sua base aliada votou em peso nele a mando do presidente. À época, existiam boas opções, como Marcel Van Hattem, que foi amplamente ignorado por aqueles que dizem ser a "nova política". Aparelhar o segundo escalão com figuras como Arthur Lira, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto um dia antes de demitir o Valeixo foi um sinal claro de que Bolsonaro é o que sempre foi: a velha política.

sábado, 4 de abril de 2020

O Jejum de Bolsonaro

Durante a entrevista do presidente Bolsonaro à Jovem Pan, ao vivo, duas coisas me surpreenderam. Primeiramente, a quasi-demissão do Ministro da Saúde Luiz Mandetta ao vivo. Segundo, o chamamento do presidente especificamente aos "ministros evangélicos" para o que seria um jejum nacional. 



A primeira coisa que me surpreendeu e é obviamente absurda. É fato indiscutível. A segunda não deveria, mas é absurda também e a minha intenção com esse texto é, exatamente, trazer uma reflexão sobre os porquês que eu entendo ser absurdo esse chamamento específico aos "líderes evangélicos".

1) Não vivemos em uma TEOcracia. É insanidade, loucura, é heresia acreditar que um presidente eleito DEMOcraticamente pode fazer uma CONVOCAÇÃO para alguma prática religiosa. Uma SANTA convocação, então, nem se fala. Vergonha alheia dele e de quem segue;

2) Como não vivemos numa TEOcracia, o presidente não é um representante de Deus. Deus escolheu Bolsonaro tanto quanto escolheu Temer, Dilma, Lula, FHC e todos seus antecessores (leia Romanos). No sentido bíblico, se até Pilatos foi escolhido por Deus para ter autoridade (leia os evangelhos), avalie Bolsonaro;

3) Ter tido o apoio de cristãos durante as eleições para justificar uma SANTA CONVOCAÇÃO para jejum é tao significativo quanto ter sido batizado por Silas Malafaia ou ter "Messias" no sobrenome. Ou seja...;

4) Conclamar "líderes evangélicos" é apelar ao apoio de parcela da liderança e de crentes comuns que tem prestado-lhe apoio cego e acrítico. A conveniência com um governo corrupto e imoral é demoníaca, divide a igreja e tem pregado uma redenção meramente humana. A teologia bolsonarista está bem semelhante à teologia da libertação: a primeira tem tornado a cruz um mero detalhe em nome do anti-petismo e conservadorismo às avessas; a segunda, como todos sabemos, tornou a cruz periférica em detrimento de obras sociais e outras coisitas más;

5) Não passe a vergonha de comparar esse jejum com outros jejuns bíblicos determinados por Deus através de reis ou rainhas: não se compara. A não ser que você esteja se referindo ao jejum de Jezabel (leia I Reis). Aí sim...;

6) Bolsonaro e Lula são faces da mesma moeda no populismo: Lula é o populista de esquerda, que se apropria das ideias progressistas e dos movimentos sociais mesmo que não tenha nenhuma simpatia por eles. Bolsonaro se apropria de valores que não comunga e faz uso, inclusive, do pior do populismo: o religioso. Bolsonaro pode até ser casado com uma protestante, mas o guru dele odeia o protestantismo;

7) A ausência de críticas por parte da igreja evangélica ao governo atual que trata a crise como fantasiosa é uma afronta à história do protestantismo tanto pela raiz de nossa denominação, como pelo valor que sempre demos à ciência. Seguir cegamente um presidente que favorece o achismo em detrimento da ciência é cuspir na história protestante;

8) Várias igrejas ao redor do país já têm feito campanhas de jejum e oração. Se você não iniciou a campanha com alguma igreja e agora pensa em iniciar por causa da "SANTA CONVOCAÇÃO", me perdoe, mas você está lendo a bíblia errada e servindo a um anti-cristo. Se arrependa e sirva a Jesus.

9) Se seu pastor ou sua igreja vai seguir a SANTA CONVOÇÃO, cuidado: você PODE ESTAR seguindo um FALSO PROFETA. Reflita a respeito. Mude enquanto é tempo. Cuidado com a operação do erro lá de II Tessalonicenses.

10) Bolsonaro usa, frequentemente, João 8:32 sem saber, exatamente, do que trata a VERDADE daquele texto. Faz o mesmo com o texto bíblico da SANTA CONVOCAÇÃO quando não observa que Deus ouve nossas orações quando NOS HUMILHAMOS e NOS CONVERTEMOS DOS MAUS CAMINHOS.

Dito tudo isto, cuidado para seu jejum não virar apenas uma dieta. Não passe fome a toa. Isso não é um indicativo que não devemos jejuar amanhã, mas não o faça por causa da SANTA CONVOCAÇÃO do presidente. Leia a Bíblia!

Bruno Moreno

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Família Santos em Missões



Amigos, gostaria de lhes contar a história de uma família que deixou João Pessoa, na Paraíba, para ir à Alemanha servir ao Senhor. Falo de Walter, Rapha e seus filhos (Rebeca e Caleb). Walter e Rapha são missionários em tempo integral e têm servido ao Senhor através da JOCUM (Jovens Com Uma Missão), que é um movimento internacional empenhado na mobilização de jovens de todas as nações para a obra missionária.


O trabalho missionário deles em tempo integral se iniciou durante a crise migratória de refugiados na Europa em meados de 2015. Desde o início daquela crise, Walter e sua família têm contribuído com a JOCUM da cidade de Bad Blankenburg com diversas atividades, seja na recepção, no acolhimento, asilo, alimentação, assessoria para questões diversas e primeiros socorros. 



Tem sido um trabalho extremamente desafiador em várias áreas, pois eles lidam com pessoas em situação de vulnerabilidade social de diversas faixas etárias e provindas de culturas muito distintas. São idosos, adultos, jovens e crianças que, por vezes, são órfãs. É através do trabalho de Walter, Rapha e tantos outros missionários que essas pessoas encontram apoio material (moradia, roupas e alimentos), social (amigos, conversas) e profissional. No entanto, a parte mais importante desse trabalho é o apoio que os missionários dão no alimento espiritual, por meio das visitas aos lares, aconselhamento, ensino da Palavra e pregação do Evangelho do Reino. 


A crise atual, da pandemia do COVID-19, tem impactado diretamente na manutenção de vários missionários ao redor do mundo; e, infelizmente, com Walter e sua família não tem sido diferente. Recentemente soubemos que um de seus principais mantenedores perdeu o emprego e não poderá mais ajudá-los com o aluguel mensal da moradia deles. É por isso que estou me chegando a vocês: gostaria de reunir o máximo de pessoas possível para manter, mensalmente, essa família querida. Qualquer ajuda é bem vinda. O aluguel deles custa 440 euros, o que dá aproximadamente R$ 2.500 reais, a depender do câmbio do dia. Temos fé de que conseguiremos uma quantia maior do que essa para ajudá-los ainda mais.

Assim funciona a fé: "ela é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos" (Hebreus 11:5). Cremos que esta pandemia é o tempo propício de exercitarmos nossa fé não somente em confiança em Deus e arrependimento de nossos pecados, mas também realizarmos aquilo que o Apóstolo Paulo sugere que façamos em Romanos 10:14: se não podemos, por nós mesmos, anunciar o evangelho que traz novidade de vida, a um povo específico, podemos enviar.

A ajuda pode ser feita a partir de R$ 10,00 mensais. Se você não puder fazê-lo, nós compreendemos perfeitamente. Pedimos, de coração, que você ore tanto por essa família como, também, que consigamos ultrapassar a meta dos R$ 2.500,00 mensais. Pedimos também que você compartilhe esta mensagem com pessoas que possivelmente podem colaborar.

Além de orar e de compartilhar esta mensagem, você também ajuda se divulgar o trabalho de Walter como Designer a possíveis interessados: https://www.behance.net/wmoriah. Esses são apenas alguns dos trabalhos de Walter que estão presentes em seu portfolio:

 
Finalmente, como iremos proceder com a ajuda financeira? Criamos um grupo no whatsapp que é voltado para todos os que podem contribuir mensalmente com QUALQUER valor a partir de R$ 10,00. Pessoas que querem contribuir de forma avulsa também são bem vindas. O grupo é voltado, especificamente, para este propósito. Se você tem interesse de entrar nessa campanha solidária, entre no grupo (link: https://chat.whatsapp.com/GgiyOG4aa760sDkKsiQLJX). Lá explicaremos mais detalhes de como serão os trâmites para que essa ajuda chegue até eles.





Nós, que assinamos logo abaixo e que estamos organizando esta campanha, estamos cientes de que pessoas mal intencionadas podem usar esta mensagem, bem como nossos nomes, para realizar os maus desígnios de seus corações. Diante disso, pedimos duas coisas. Primeiro, que você compartilhe esta mensagem, realmente, com quem possivelmente pode colaborar. Segundo, publicamos esta mensagem na íntegra no site a seguir para que você, que queira colaborar, possa verificar se confere com a original. Verifique aqui: https://bnmoreno.blogspot.com/2020/04/familia-santos-em-missoes.html.

Muito Obrigado!

Organizadores da campanha:
Bruno Moreno
Mayara Moreno
Danillo Vita
Isabel Azevedo
Nilsara Oliveira

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Seguem os dados bancários de Walter:

Nome Completo: Walter Araújo dos Santos
CPF: 252.625.878-28

Banco do Brasil
Agência: 1234-3
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Banco Nu Pagamentos S.A. (código 260)
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quarta-feira, 25 de março de 2020

Guilherme de Carvalho - O Nome de Deus no Governo Bolsonaro: uma crítica teológico-política

Recentemente o pastor Guilherme de Carvalho anunciou sua saída do cargo que ocupava no governo federal.




Após alguns dias, ele escreveu uma crítica teológico política ao governo que ele compôs. O textoé longo, mas de alto nível. Muito esclarecedor e profético também diante do pronunciamento de ontem do presidente em rede nacional. Foi por essa razão que decidi resumir e ilustrar a crítica do pastor com o objetivo de ajudar os preguiçosos, crentes e descrentes, progressistas e conservadores. Você, ANCAP, não.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui



Vamos a Guilherme de Carvalho... (repito: todas as imagens foram colocadas por mim e são meramente ilustrativas)

"A ascensão da COVID-19 abriu no governo uma crise sem precedentes, que não se transformou em ruptura porque o compromisso emergencial com a nação se sobrepôs à vergonha e à falta de liderança. O transparecimento da problemática dinâmica interna do governo nessa crise oportuniza um balanço sobre a sua fidelidade teológica, e torna necessária e inadiável uma tomada de posição diante do espírito e da direção que vem sendo assumida pela Presidência do Sr. Jair Messias Bolsonaro, a partir do núcleo ideológico que hoje o orienta.

O movimento pilotado pelo filósofo [Olavo de Carvalho] ganhou forte apoio entre conservadores em geral, e particularmente entre católicos romanos; eventualmente, e não sem serem periodicamente ridicularizados pelo mestre, evangélicos se submeteram não apenas à doutrina conspiracionista, mas também ao páthos agressivo do mentor. E absorveram esse páthos, dos xingamentos e “palavrões” até à versão tupiniquim do discurso antiglobalista e neo-soberanista que hoje se tornou bastante… global.



Muito já se apontou a existência de traços fascistas nesse movimento [o movimento Bolsolavista]. O populismo e o desprezo pelas instituições, aliado ao discurso maniqueísta do “nós versus eles” e ao assassinato de reputações, já foram apontados como marcas inambíguas. Mas isso não ajuda tanto assim; os quatro sinais são reconhecidamente presentes no Lulopetismo, ainda que devidamente cozidos no dendê.



O fato é que, ainda que surfando em uma onda conservadora, o núcleo ideológico bolsolavista não era e nunca foi a própria onda. Milhões de católicos e evangélicos votaram em Bolsonaro, e muitos que votaram no outro lado votaram mais para evitar um mal do que por uma crença no projeto da esquerda. Esse núcleo ideológico não ascenderia ao poder sem a ajuda de militares moderados, católicos comuns, evangélicos, liberais, e quadros técnicos menos interessados em revolução e mais preocupados com soluções. E quando o governo foi efetivamente formado, formou-se como um composto de todas essas forças.


Eu avaliaria o grau de fascismo de um governo em três níveis: em seu páthos, em sua política, e em sua política pública. O governo Bolsonaro não apresenta nenhum dos três de forma consolidada. Em primeiro lugar, não há fascismo na política pública deste governo, e desafio o leitor a provar que exista. Nesse momento de pandemia, como ilustração, não se vê nenhuma ação agressiva de cerceamento de informações ou violação de liberdades civis por iniciativa do executivo. E inúmeras situações-teste já ocorreram sem resultado positivo. A esquerda insiste em gritar isso, mas ninguém liga. Porque todo mundo sabe que é mentira.



A coisa muda de figura quando chegamos à política. Ao longo dos meses tornou-se progressivamente visível a direção anti-institucional, populista e nacionalista no trato governamental com os poderes, com a imprensa, e em alguns contextos, como o MEC. A presidência não honra os “magistrados inferiores” e os outros poderes. Essa política revela uma vontade fascistóide.



Mas o assento efetivo do nosso “protofascismo” tupiniquim é realmente o páthos. Há, no núcleo ideológico, um sentimento autoritário, um sagrado pervertido, uma atitude de desprezo pelo vulnerável, um espírito ressentido e doente. Esse páthos, a bem da verdade, pode acometer a qualquer um. Mas quando se torna coisa doutrinária e inspiração metodológica, é algo realmente perigoso. A política, de um meio de amar e cuidar, torna-se uma extensão da guerra, um instrumento para arrasar, destruir e extirpar. Todos viram esse sentimento estranho evidente na alma do movimento bolsolavista.


Ainda assim, esse páthos, que tem seu epicentro em um elusivo mas real núcleo ideológico e em representantes em vários escalões, não é dominante no governo efetivo. Distinga-se o “governo” da “presidência-núcleo”, e ficará claro que a maioria dos ministros, secretários e diretores são apenas gente conservadora ou liberal que deseja servir ao país, e não prioritariamente fazer a revolução antiglobalista de Olavo de Carvalho. O Governo, no sentido lato, não é fascista.



Ao aceitar o cargo [no governo], ainda que reconhecendo a força do Bolsolavismo, não estava clara para mim a possibilidade ou impossibilidade de reversão dessa ideologia. Àquela altura eu não teria como responder a tal questão; seria necessário me aproximar mais e entender o fenômeno. Quem sabe a realidade ajudaria o governo a tirar o seu Cristianismo do papel? Tive que fazer a aposta. Sim, admito: foi uma aposta otimista. Mas não sou dado a esperar sempre o pior.



Crise após crise, no entanto, dissiparam tais dúvidas. E a crise realmente crucial foi a presente conflagração da COVID-19. Diante dos olhos incréus de todos, o Ministério da Saúde fazia o seu melhor para organizar uma resposta à pandemia enquanto o Presidente dava a ressonância mais pueril à narrativa negacionista do núcleo ideológico. Notava-se a gravidade da situação global e o enorme risco de vida para todos, mas especialmente para os vulneráveis, como os velhos, os portadores de doenças crônicas, os pobres espremidos em milhares de favelas e no transporte público, e os trabalhadores informais que vivem de negócios diários. E, no entanto, a nossa direita protofascista fazia pouco da crise. E promovia uma absolutamente perversa e irresponsável manifestação num fatídico quinze-de-março. Não importa se o Congresso realmente vinha chantageando o Executivo; isso é outro assunto. Esse quinze-de-março viveria eternamente, se Deus não fosse destruir todas as coisas no fim do mundo.


Apenas com muito esforço a Presidência cedeu lugar à ciência, e vimos florescer Mandetta, o homem certo na hora certa. Enquanto isso, prevendo o desastre, Olavo de Carvalho proclamou em seu Instagram a “covardia” do presidente, por não haver “desarmado” desde o início os seus inimigos, e por ter dado ouvidos aos moderados e medrosos. Que essa “covardia”, que na verdade é lucidez, seja lembrada em louvor do Presidente.

Aí está, nua e com as vergonhas expostas, a estrutura do regime: um governo rico de conservadores bem-intencionados e de técnicos competentes, gerido por um presidente que se deixa controlar por um núcleo ideológico que o aliena da sua tarefa. E esse núcleo ideológico colocou a nação em perigo. Esse núcleo precisa ser confrontado e enquadrado pelo Presidente. Bolsonaro precisa destruir o poste-ídolo levantado no Palácio do Planalto, o poste que traz a imagem do seu rosto, e que foi posto lá por ordens do Sumo-Sacerdote Olavo de Carvalho. Bolsonaro precisa deixar o papel de lacrador-mor e se tornar homem de Estado. Do contrário, Senhor Presidente, como cantou certo profeta, God’s Gonna Cut you Down.


Diante desses fatos, e de outros fatos políticos importantes, que ocuparão a minha atenção agora, e que não dizem respeito ao executivo, concluí que deveria deixar o governo. E pedi a minha exoneração. Não porque considere a convicção Cristã como necessariamente incompatível com a participação em um mau governo; longe disso! Insisto que cristãos no governo façam o máximo possível para permanecer e ser a luz do mundo onde estiverem. A questão é que, doravante, eu não poderia mais atuar como servidor público nesse governo e ao mesmo tempo ajudar os Cristãos evangélicos a interpretar o fenômeno como teólogo público. Essa foi uma questão muito pessoal e vocacional; tive que largar o paletó e pegar o cajado por uma demanda pastoral e teológica.


São diversos os fatos que confirmam essa incapacidade, e alisto abaixo seis, sendo seis o número do homem:

Em primeiro lugar, o espírito revanchista e cheio de ressentimento, e carente de qualquer movimento dialógico e reconciliatório, cultivado e propagado pelo núcleo ideológico, patente na queima de reputações, na incivilidade no debate público, e na incapacidade de construir círculos de cooperação a despeito das divergências, constitui clara negação do espírito Cristão que, segundo o exemplo de Cristo, promove a pacificação, a tolerância na diferença, e a comunicação genuína. O pathos do atual governo não é cristão.


Em segundo lugar, o desprezo pelas instituições e a tentativa de governar manipulando as massas contra outras autoridades públicas é autoritarismo, e reproduz o mesmo método neopopulista renovado pelas esquerdas na fase anterior da atual “dispensação” política, método esse que desrespeita o princípio da subsidiariedade e oportuniza o erro messianista. Sabendo que autoridades públicas são servas de Deus e dos homens, o estímulo e a tolerância da presidência da república a claros gestos de idolatria política, oriundos da extrema direita e de apoiadores radicais, constitui negação da visão Cristã do poder político.


Em terceiro lugar, o desprezo pela imprensa e pela comunidade acadêmica e científica e o esforço para desqualificar a autoridade desses campos se mostra uma perigosa faceta do autoritarismo. Muito embora seja indiscutivelmente verdadeiro que amplos setores da imprensa hoje careçam de práticas éticas de comunicação, de genuíno pluralismo, e de capacidade de respeitar posições conservadoras na arena pública, não é função do Estado desqualificar o jornalismo nem a universidade, mas assumir a liderança nacional na construção do diálogo e no fomento a melhores práticas. Embora não tenha havido cerceamento da liberdade de pensamento e expressão, tal desqualificação constitui uma forma de autoritarismo soft, ainda incompatível com a visão Cristã da autoridade como serva da sociedade.

Nota pessoal de Bruno Moreno: este alcool em gel foi produzido pela instituição que trabalho (IFRN) e DOADO para quem mais precisa.

Em quarto lugar, o necessário e louvável amor pela pátria degrada-se em um nacionalismo. Esse nacionalismo lança o compromisso com a história, a tradição e a autoridade, em antítese contra o diálogo internacional com sua ênfase na solidariedade humana, alimentando teorias conspiratórias contra os sistemas de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. Embora tais sistemas manifestem reais desvios ideológicos, e o neo-soberanismo tenha um papel histórico salutar, as pessoas e o planeta não podem ser invisibilizados em nome da “nação”. O nacionalismo, ou idolatria da nacionalidade, constitui clara negação da visão Cristã da soberania e da nação. O “Brasil” não está acima de tudo. A pessoa humana está acima de tudo o que é temporal, pois apenas ela é Imago Dei.


Em quinto lugar, o descuido pela pessoa humana e pelo meio ambiente é incompatível com a ética Cristã do cuidado. Esse descuido se mostra no preconceito, dentro do governo, contra a promoção da dignidade e dos direitos da pessoa humana, no descompromisso com os vulneráveis, e no desinteresse pela conservação ambiental, muitas vezes em nome de um liberalismo econômico e político. A despeito dos honoráveis esforços de setores cristãos do governo para manter vivas essas pautas, a presidência e o núcleo ideológico pouco se importam com elas. Em poucos momentos esse desprezo mostrou-se tão evidente quanto na resposta inconsequente da presidência diante da ameaça de pandemia global. Esse ethos predatório constitui clara negação da visão Cristã da pessoa humana, da sociedade e da Criação. De que adianta ser “pró-vida” e “pró-família”, se o princípio da fraternidade é tão despudoradamente ignorado?


Em sexto lugar, o desprezo pela vida humana se manifesta em uma patológica celebração simbólica da violência. Novamente, reconheço e honro os esforços do ministério da justiça no combate à corrupção e no empoderamento dos sistemas de segurança pública. Mas a celebração inconsequente da violência e do armamentismo e a banalização da morte destroem a capacidade do governo de se comunicar com as faixas da população que mais sofrem com a criminalidade, e legitimam o espírito autoritário nesse sistema. Embora seja Cristão priorizar as vítimas de violência e agir duramente contra o crime, não é papel do Estado concluir o processo de desumanização do criminoso, pois só Deus tem esse poder. E não nos esqueçamos: um partido que aceita ser representado como uma “aliança” feita de balas é um insulto ao Criador da vida.


Diante desses fatos, só posso considerar que, em seu mote “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o Governo Bolsonaro, a partir de seu núcleo ideológico, usa o nome de Deus em vão, violando, entre vários outros, o terceiro mandamento do decálogo. Pois ele usa o nome de Deus, e solicita assim a colaboração das igrejas Cristãs, negando o próprio espírito do Cristianismo. E usar o nome de Deus para fins escusos é exatamente o que é proibido pelo Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés, e de Jesus Cristo.


A incapacidade de honrar a Deus decorre do fato de que o “Deus” do governo Bolsonaro é uma abstração. É um símbolo de autoridade. Embora Deus detenha, de fato, toda a autoridade, sendo o “Todo-Poderoso”, esse Deus é o Pai de Jesus Cristo, segundo o Credo Apostólico. Não compreendemos o Deus Todo-Poderoso sem Jesus Cristo. E Jesus Cristo está ausente do núcleo ideológico. Jesus Cristo, servo dos homens, pacificador, cuidador do rebanho de Deus, onde ele está? Um governo que se preocupa mais com a narrativa antiglobalista do que no impacto da Pandemia sobre os idosos, o que sabe ele sobre Jesus Cristo?


[O Profeta Ezequiel anuncia que a] função das autoridades é cuidar das pessoas. Cristo se entregou pelas pessoas. Um governo Cristão se ocupa da pessoa humana. Mas núcleo do atual governo – não todo ele – se ocupa de uma narrativa. De abstrações morais. Pode ser um governo vagamente “teísta”, mas não é Cristão. Um governo de espírito Cristão seria conservador nos costumes, mas também na imitação de Cristo. Seria anti-aborto e pró-humanização dos presídios; pró-família e pró-conservação ambiental. Se oporia à revolução sexual, como deve ser, mas recusaria toda a mentalidade revolucionária. Falaria em liberdade, sim, mas não esqueceria a igualdade, a fraternidade, e a dignidade humana. Inclusive a dignidade de jornalistas, por chatos e enviesados que sejam.


Pois pelo bem das comunidades, muitos de nós demandarão que o presidente cesse de empregar o Santo Nome de Deus em suas empreitadas, e de confundir as mentes dos Brasileiros. E tão certo quanto vive o Senhor, se tal arrependimento não ocorrer, usaremos todos os meios religiosos possíveis para proteger o rebanho do Senhor contra os lobos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Lembraremos a nossos rebanhos que o Deus do Bolsolavismo é tão falso quanto o Cristo da Mangueira.


Não escrevo tais palavras para municiar a extrema-esquerda. Pelo contrário, gostaria de ver mudanças. Uma reorientação. Uma retomada do espírito cristão, exatamente para não termos que voltar ao suplício da esquerda revolucionária.


Não me iludo; estou ciente de que meus reclames pouco farão para mudar a política deste governo. Mas o governo nem é a minha prioridade. A postura e testemunho da comunidade Cristã diante da pessoa humana: essa é a grande questão. Afinal de contas, o Brasil é importante, mas não está acima de tudo.


O Autor do Texto: Guilherme de Carvalho