Recentemente o pastor Guilherme de Carvalho anunciou sua saída do cargo que ocupava no governo federal.
Após alguns dias, ele escreveu uma crítica teológico política ao governo que ele compôs. O textoé longo, mas de alto nível. Muito esclarecedor e profético também diante do pronunciamento de ontem do presidente em rede nacional. Foi por essa razão que decidi resumir e ilustrar a crítica do pastor com o objetivo de ajudar os preguiçosos, crentes e descrentes, progressistas e conservadores. Você, ANCAP, não.
O artigo pode ser lido na íntegra
aqui.
Vamos a Guilherme de Carvalho... (repito: todas as imagens foram colocadas por mim e são meramente ilustrativas)
"A ascensão da COVID-19 abriu no governo uma crise sem precedentes, que não se transformou em ruptura porque o compromisso emergencial com a nação se sobrepôs à vergonha e à falta de liderança. O transparecimento da problemática dinâmica interna do governo nessa crise oportuniza um balanço sobre a sua fidelidade teológica, e torna necessária e inadiável uma tomada de posição diante do espírito e da direção que vem sendo assumida pela Presidência do Sr. Jair Messias Bolsonaro, a partir do núcleo ideológico que hoje o orienta.
O movimento pilotado pelo filósofo [Olavo de Carvalho] ganhou forte apoio entre conservadores em geral, e particularmente entre católicos romanos; eventualmente, e não sem serem periodicamente ridicularizados pelo mestre, evangélicos se submeteram não apenas à doutrina conspiracionista, mas também ao páthos agressivo do mentor. E absorveram esse páthos, dos xingamentos e “palavrões” até à versão tupiniquim do discurso antiglobalista e neo-soberanista que hoje se tornou bastante… global.
Muito já se apontou a existência de traços fascistas nesse movimento [o movimento Bolsolavista]. O populismo e o desprezo pelas instituições, aliado ao discurso maniqueísta do “nós versus eles” e ao assassinato de reputações, já foram apontados como marcas inambíguas. Mas isso não ajuda tanto assim; os quatro sinais são reconhecidamente presentes no Lulopetismo, ainda que devidamente cozidos no dendê.

O fato é que, ainda que surfando em uma onda conservadora, o núcleo ideológico bolsolavista não era e nunca foi a própria onda. Milhões de católicos e evangélicos votaram em Bolsonaro, e muitos que votaram no outro lado votaram mais para evitar um mal do que por uma crença no projeto da esquerda. Esse núcleo ideológico não ascenderia ao poder sem a ajuda de militares moderados, católicos comuns, evangélicos, liberais, e quadros técnicos menos interessados em revolução e mais preocupados com soluções. E quando o governo foi efetivamente formado, formou-se como um composto de todas essas forças.

Eu avaliaria o grau de fascismo de um governo em três níveis: em seu páthos, em sua política, e em sua política pública. O governo Bolsonaro não apresenta nenhum dos três de forma consolidada. Em primeiro lugar, não há fascismo na política pública deste governo, e desafio o leitor a provar que exista. Nesse momento de pandemia, como ilustração, não se vê nenhuma ação agressiva de cerceamento de informações ou violação de liberdades civis por iniciativa do executivo. E inúmeras situações-teste já ocorreram sem resultado positivo. A esquerda insiste em gritar isso, mas ninguém liga. Porque todo mundo sabe que é mentira.
A coisa muda de figura quando chegamos à política. Ao longo dos meses tornou-se progressivamente visível a direção anti-institucional, populista e nacionalista no trato governamental com os poderes, com a imprensa, e em alguns contextos, como o MEC. A presidência não honra os “magistrados inferiores” e os outros poderes. Essa política revela uma vontade fascistóide.
Mas o assento efetivo do nosso “protofascismo” tupiniquim é realmente o páthos. Há, no núcleo ideológico, um sentimento autoritário, um sagrado pervertido, uma atitude de desprezo pelo vulnerável, um espírito ressentido e doente. Esse páthos, a bem da verdade, pode acometer a qualquer um. Mas quando se torna coisa doutrinária e inspiração metodológica, é algo realmente perigoso. A política, de um meio de amar e cuidar, torna-se uma extensão da guerra, um instrumento para arrasar, destruir e extirpar. Todos viram esse sentimento estranho evidente na alma do movimento bolsolavista.

Ainda assim, esse páthos, que tem seu epicentro em um elusivo mas real núcleo ideológico e em representantes em vários escalões, não é dominante no governo efetivo. Distinga-se o “governo” da “presidência-núcleo”, e ficará claro que a maioria dos ministros, secretários e diretores são apenas gente conservadora ou liberal que deseja servir ao país, e não prioritariamente fazer a revolução antiglobalista de Olavo de Carvalho. O Governo, no sentido lato, não é fascista.
Ao aceitar o cargo [no governo], ainda que reconhecendo a força do Bolsolavismo, não estava clara para mim a possibilidade ou impossibilidade de reversão dessa ideologia. Àquela altura eu não teria como responder a tal questão; seria necessário me aproximar mais e entender o fenômeno. Quem sabe a realidade ajudaria o governo a tirar o seu Cristianismo do papel? Tive que fazer a aposta. Sim, admito: foi uma aposta otimista. Mas não sou dado a esperar sempre o pior.

Crise após crise, no entanto, dissiparam tais dúvidas. E a crise realmente crucial foi a presente conflagração da COVID-19. Diante dos olhos incréus de todos, o Ministério da Saúde fazia o seu melhor para organizar uma resposta à pandemia enquanto o Presidente dava a ressonância mais pueril à narrativa negacionista do núcleo ideológico. Notava-se a gravidade da situação global e o enorme risco de vida para todos, mas especialmente para os vulneráveis, como os velhos, os portadores de doenças crônicas, os pobres espremidos em milhares de favelas e no transporte público, e os trabalhadores informais que vivem de negócios diários. E, no entanto, a nossa direita protofascista fazia pouco da crise. E promovia uma absolutamente perversa e irresponsável manifestação num fatídico quinze-de-março. Não importa se o Congresso realmente vinha chantageando o Executivo; isso é outro assunto. Esse quinze-de-março viveria eternamente, se Deus não fosse destruir todas as coisas no fim do mundo.

Apenas com muito esforço a Presidência cedeu lugar à ciência, e vimos florescer Mandetta, o homem certo na hora certa. Enquanto isso, prevendo o desastre, Olavo de Carvalho proclamou em seu Instagram a “covardia” do presidente, por não haver “desarmado” desde o início os seus inimigos, e por ter dado ouvidos aos moderados e medrosos. Que essa “covardia”, que na verdade é lucidez, seja lembrada em louvor do Presidente.
Aí está, nua e com as vergonhas expostas, a estrutura do regime: um governo rico de conservadores bem-intencionados e de técnicos competentes, gerido por um presidente que se deixa controlar por um núcleo ideológico que o aliena da sua tarefa. E esse núcleo ideológico colocou a nação em perigo. Esse núcleo precisa ser confrontado e enquadrado pelo Presidente. Bolsonaro precisa destruir o poste-ídolo levantado no Palácio do Planalto, o poste que traz a imagem do seu rosto, e que foi posto lá por ordens do Sumo-Sacerdote Olavo de Carvalho. Bolsonaro precisa deixar o papel de lacrador-mor e se tornar homem de Estado. Do contrário, Senhor Presidente, como cantou certo profeta, God’s Gonna Cut you Down.

Diante desses fatos, e de outros fatos políticos importantes, que ocuparão a minha atenção agora, e que não dizem respeito ao executivo, concluí que deveria deixar o governo. E pedi a minha exoneração. Não porque considere a convicção Cristã como necessariamente incompatível com a participação em um mau governo; longe disso! Insisto que cristãos no governo façam o máximo possível para permanecer e ser a luz do mundo onde estiverem. A questão é que, doravante, eu não poderia mais atuar como servidor público nesse governo e ao mesmo tempo ajudar os Cristãos evangélicos a interpretar o fenômeno como teólogo público. Essa foi uma questão muito pessoal e vocacional; tive que largar o paletó e pegar o cajado por uma demanda pastoral e teológica.
São diversos os fatos que confirmam essa incapacidade, e alisto abaixo seis, sendo seis o número do homem:
Em primeiro lugar, o espírito revanchista e cheio de ressentimento, e carente de qualquer movimento dialógico e reconciliatório, cultivado e propagado pelo núcleo ideológico, patente na queima de reputações, na incivilidade no debate público, e na incapacidade de construir círculos de cooperação a despeito das divergências, constitui clara negação do espírito Cristão que, segundo o exemplo de Cristo, promove a pacificação, a tolerância na diferença, e a comunicação genuína. O pathos do atual governo não é cristão.

Em segundo lugar, o desprezo pelas instituições e a tentativa de governar manipulando as massas contra outras autoridades públicas é autoritarismo, e reproduz o mesmo método neopopulista renovado pelas esquerdas na fase anterior da atual “dispensação” política, método esse que desrespeita o princípio da subsidiariedade e oportuniza o erro messianista. Sabendo que autoridades públicas são servas de Deus e dos homens, o estímulo e a tolerância da presidência da república a claros gestos de idolatria política, oriundos da extrema direita e de apoiadores radicais, constitui negação da visão Cristã do poder político.

Em terceiro lugar, o desprezo pela imprensa e pela comunidade acadêmica e científica e o esforço para desqualificar a autoridade desses campos se mostra uma perigosa faceta do autoritarismo. Muito embora seja indiscutivelmente verdadeiro que amplos setores da imprensa hoje careçam de práticas éticas de comunicação, de genuíno pluralismo, e de capacidade de respeitar posições conservadoras na arena pública, não é função do Estado desqualificar o jornalismo nem a universidade, mas assumir a liderança nacional na construção do diálogo e no fomento a melhores práticas. Embora não tenha havido cerceamento da liberdade de pensamento e expressão, tal desqualificação constitui uma forma de autoritarismo soft, ainda incompatível com a visão Cristã da autoridade como serva da sociedade.
Nota pessoal de Bruno Moreno: este alcool em gel foi produzido pela instituição que trabalho (IFRN) e DOADO para quem mais precisa.
Em quarto lugar, o necessário e louvável amor pela pátria degrada-se em um nacionalismo. Esse nacionalismo lança o compromisso com a história, a tradição e a autoridade, em antítese contra o diálogo internacional com sua ênfase na solidariedade humana, alimentando teorias conspiratórias contra os sistemas de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. Embora tais sistemas manifestem reais desvios ideológicos, e o neo-soberanismo tenha um papel histórico salutar, as pessoas e o planeta não podem ser invisibilizados em nome da “nação”. O nacionalismo, ou idolatria da nacionalidade, constitui clara negação da visão Cristã da soberania e da nação. O “Brasil” não está acima de tudo. A pessoa humana está acima de tudo o que é temporal, pois apenas ela é Imago Dei.

Em quinto lugar, o descuido pela pessoa humana e pelo meio ambiente é incompatível com a ética Cristã do cuidado. Esse descuido se mostra no preconceito, dentro do governo, contra a promoção da dignidade e dos direitos da pessoa humana, no descompromisso com os vulneráveis, e no desinteresse pela conservação ambiental, muitas vezes em nome de um liberalismo econômico e político. A despeito dos honoráveis esforços de setores cristãos do governo para manter vivas essas pautas, a presidência e o núcleo ideológico pouco se importam com elas. Em poucos momentos esse desprezo mostrou-se tão evidente quanto na resposta inconsequente da presidência diante da ameaça de pandemia global. Esse ethos predatório constitui clara negação da visão Cristã da pessoa humana, da sociedade e da Criação. De que adianta ser “pró-vida” e “pró-família”, se o princípio da fraternidade é tão despudoradamente ignorado?

Em sexto lugar, o desprezo pela vida humana se manifesta em uma patológica celebração simbólica da violência. Novamente, reconheço e honro os esforços do ministério da justiça no combate à corrupção e no empoderamento dos sistemas de segurança pública. Mas a celebração inconsequente da violência e do armamentismo e a banalização da morte destroem a capacidade do governo de se comunicar com as faixas da população que mais sofrem com a criminalidade, e legitimam o espírito autoritário nesse sistema. Embora seja Cristão priorizar as vítimas de violência e agir duramente contra o crime, não é papel do Estado concluir o processo de desumanização do criminoso, pois só Deus tem esse poder. E não nos esqueçamos: um partido que aceita ser representado como uma “aliança” feita de balas é um insulto ao Criador da vida.

Diante desses fatos, só posso considerar que, em seu mote “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o Governo Bolsonaro, a partir de seu núcleo ideológico, usa o nome de Deus em vão, violando, entre vários outros, o terceiro mandamento do decálogo. Pois ele usa o nome de Deus, e solicita assim a colaboração das igrejas Cristãs, negando o próprio espírito do Cristianismo. E usar o nome de Deus para fins escusos é exatamente o que é proibido pelo Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés, e de Jesus Cristo.

A incapacidade de honrar a Deus decorre do fato de que o “Deus” do governo Bolsonaro é uma abstração. É um símbolo de autoridade. Embora Deus detenha, de fato, toda a autoridade, sendo o “Todo-Poderoso”, esse Deus é o Pai de Jesus Cristo, segundo o Credo Apostólico. Não compreendemos o Deus Todo-Poderoso sem Jesus Cristo. E Jesus Cristo está ausente do núcleo ideológico. Jesus Cristo, servo dos homens, pacificador, cuidador do rebanho de Deus, onde ele está? Um governo que se preocupa mais com a narrativa antiglobalista do que no impacto da Pandemia sobre os idosos, o que sabe ele sobre Jesus Cristo?

[O Profeta Ezequiel anuncia que a] função das autoridades é cuidar das pessoas. Cristo se entregou pelas pessoas. Um governo Cristão se ocupa da pessoa humana. Mas núcleo do atual governo – não todo ele – se ocupa de uma narrativa. De abstrações morais. Pode ser um governo vagamente “teísta”, mas não é Cristão. Um governo de espírito Cristão seria conservador nos costumes, mas também na imitação de Cristo. Seria anti-aborto e pró-humanização dos presídios; pró-família e pró-conservação ambiental. Se oporia à revolução sexual, como deve ser, mas recusaria toda a mentalidade revolucionária. Falaria em liberdade, sim, mas não esqueceria a igualdade, a fraternidade, e a dignidade humana. Inclusive a dignidade de jornalistas, por chatos e enviesados que sejam.

Pois pelo bem das comunidades, muitos de nós demandarão que o presidente cesse de empregar o Santo Nome de Deus em suas empreitadas, e de confundir as mentes dos Brasileiros. E tão certo quanto vive o Senhor, se tal arrependimento não ocorrer, usaremos todos os meios religiosos possíveis para proteger o rebanho do Senhor contra os lobos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Lembraremos a nossos rebanhos que o Deus do Bolsolavismo é tão falso quanto o Cristo da Mangueira.
Não escrevo tais palavras para municiar a extrema-esquerda. Pelo contrário, gostaria de ver mudanças. Uma reorientação. Uma retomada do espírito cristão, exatamente para não termos que voltar ao suplício da esquerda revolucionária.
Não me iludo; estou ciente de que meus reclames pouco farão para mudar a política deste governo. Mas o governo nem é a minha prioridade. A postura e testemunho da comunidade Cristã diante da pessoa humana: essa é a grande questão. Afinal de contas, o Brasil é importante, mas não está acima de tudo.